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Contos

Singulares da Cidade

por

António Bivar Segurado

(1) «O Pintor da Noite»

Entre a realidade e a ficção.

O Pintor trajado num impecável «smoking» preto e lustroso de cabelo puxado à nuca pelo peso e cola da brilhantina, descia o Chiado diariamente em pleno dia, na década dos anos sessenta. Os transeuntes e curiosos mal olhavam para ele, tal era o seu previsível e insistente hábito da visita pontual pelo meio dia. Reparei nele, teria eu uns doze anos e pensei que seria uma estrela do «cinema mudo», fugido à sessão de filmagem que decorria por ali próximo. Andava num passo rápido, não sendo muito alto, era magro e elegante, de laço preto sobre uma camisa de goma de puro branco. Havia na personagem algo de misterioso e deslocado pelo seu traje e penteado empastado, perante o cenário duradouro da Rua Garrett e as frentes de lojas molhadas pelo rio de clientes bem vestidos, que ora espreitam as montras, ora entram, sempre carregados de sacos de compras de cartão. O Pintor da Noite assim chamado, e pelo traje não poderia estar mais bem vestido. Saíra do drama de um casamento não consumido na hora do enlace naquela igreja ali perto. Dizia-se que Deus teria tido uma cena de ciúme pela beleza da noiva e a teria levado ali mesmo no acto da cerimónia quando o nome do noivo foi mencionado pelo padre. O pobre sentiu-se ludibriado pelo destino, pela luz da vida, e a partir daquele momento, rejeitou a claridade e inverteu para si, o dia pela noite. Passou-se a vestir a rigor com o «smoking», o fato de cerimónia para a noite, mas durante o dia. À noite trabalhava vestido de bata branca nas suas pinturas e retratava as paisagens urbanas no escuro-de-breu e no preto das telas. Um viúvo de fresco que pintava telas de vistas de ruas e ruelas no preto da cidade, durante a noite e que no dia na claridade, fazia serão nos seus contactos sociais. Para além de algumas vezes que o avistei na Rua do Carmo ou na Rua Garrett, ia eu uma vez na direcção do encontro com o meu pai, que trabalhava por perto no seu atelier, num quarto andar em cima do Jerónimo Martins, já neste tempo de alguma fama, quando reparei na paragem do Pintor e na conversa acesa com dois amigos frente ao Café A Brasileira. Estranhei na minha lógica de miúdo, que tal personagem aceitasse falar com outras pessoas que não trajassem «smoking». A prova olhada que o «Pintor da Noite» era a normalidade em pessoa, e assim o constatei.

(2) «O Aldrabão»

Um pequeno episódio aqui contado de dois atores da vida, que fabricaram uma pequena história de fição, e no entanto por eles vivida em Lisboa. Ocorre nas poucas horas de uma manhã, de um dia quente, de Setembro, corria o ínicio do segundo milénio e assim vai o pequeno conto: António, estacionara o automóvel, e encontra-se já no passeio, no devagar estuda a máquina do parqueamento. Pusera uma moeda na ranhura, o único troco no bolso e nada acontecera. O bilhete não sai, a máquina prepara-se para reter o dinheiro, nesse instante, ouve detrás um grito de homem:

- «És tu... Não acredito, tu! já não te via há mais de vinte anos.»

Chocado e surpreendido pela chegada do estranho junto de si, quase encostado às suas costas, António olha e a resposta do intruso, prossegue e vem rápida:

- «Não te lembras?

Fomos vizinhos, os nossos pais tinham casa práticamente ao lado de um do outro. Éramos vizinhos, crescemos juntos, eu sou o José Jorge Vasconcelos.» António olha pasmado para este: cabelo cortado à escovinha, no estilo da moda actual, camisa sem-mangas ou T shirt, calças de ganga, um saco novo desportista azul na sua mão. Jorge de uma classe não estandartizada, perdida algures numa vivência de prática de expedientes de rua e auto-enfermagem. Na primeira impressão de António, mais um arrumador a extorquir dinheiro, mas a memória do seu amigo de infância o Jorge, que lhe fora contado e que morrera tocou-lhe no inacritável, o credível de coincidências.

-«Há quanto tempo eu não te via! mas estás igual»-

Prosseguia a voz.

António, antónito olha para o indivíduo e vê as parecenças deste com o jovem rapaz com qual brincava na praceta pública frnte à sua casa, quando tinha uns 12 anos. O indivíduo à sua frente exibe o mesmo nariz arredondado e arrebitado numa cabeça rectangular. O mesmo defeito na fala causada pelo movimento irregular do lábio inferior. Mas a este falta-lhe um dente da frente. O seu cheiro a suor é nauseabundo e projecta-se em seu redor... O homem prossegue,

-«Cheguei hoje da Àfrica do Sul, a minha mulher e a minha filha seguiram também.
Terrível! os seus corpos! foram mortas! e agora despachei-os para cá...
Passei toda a manhã com o subsecretário de Estado.»–

António responde-lhe hesitante:

-«Mas és tu Jorge?...há quanto tempo eu não te via...30 anos ou mais.» –

-«Pois é! Fui para a África do Sul, já há muito tempo, e agora no meio disto encontro-te.»-

-«Mas o que é que aconteceu á tua mulher e filha?»-

António pausa disfarçando ao desconfiança e deixa-o continuar. Jorge diz-lhe em tom de confissão:

-«Foram mortas!

Aquilo lá... Está como dizem nos jornais. Despachei-as para Portugal. Para Miramar no Porto. Os meus pais vivem lá agora, mudaram-se há muito. O meu velho disse que tomava conta de tudo. Imagina que vim assim de repente, não tenho dinheiro comigo para a passagem de comboio para o Porto. Disseram-me, há bocadinho, que era cerca de 13 euros. Estou arrasado, preciso de descansar disto tudo, estou completamente esgotado. Passei a noite toda no avião... Cheguei hoje de manhã, agora isto... Que coincidência, te ter encontrado... Dá-me o teu endereço que depois faço-te chegar o dinheiro. –»

António olha para o indivíduo, descobrindo as parecenças de há pouco.

Antecipando a reacção de desconfiança, Jorge continua:

-«Tu mudaste muito.»–

O seu estado e a sua história comove António e este pensa:

«Caramba este «gajo!», devia estar morto, mas se calhar foi o irmão mais velho, mais o segundo que morreram e este sempre poderia ser o terceiro deles.
Pelos vistos troquei os nomes.
Como sempre a minha memória! troco tudo!»

Da desconfiança esboça-se uma réstia de esperança pela vida do velho amigo de infância, que o informaram morto ainda novo. António joga com a esperança de algo inconcebível, e diz para si próprio:

« O Jorge Vasconcelos, aqui, ainda por cima neste estado? deve ser um drogado concerteza, mas estará vivo? Faço a prova dos nove.»

Pensa António desconfiado e lança o repto:

«-Eu levo-te à Estação do comboios para o Porto, Deixo-te lá. Vamos lá então a Sta. Apolónia.»– No intuito de embaraçar o impostor ou prestar homenagem à memória do seu velho amigo Jorge, António decide-se a levá-lo a Sta. Apolónia e metê-lo no comboio. O olhar perdido de Jorge, persuasivo da desgraça que se abateu sobre ele, inquieta António, pela sua possível realidade, ou verdade, e este pergunta-se mudo:

« Será mesmo ele? Quero acreditar, mas não bate certo! Só pelo desespero ajuda-se o sujeito na mentira. Não deixo uma possibilidade, por esclarecer. Humilha-se o impostor na cantiga, e presta-se uma homenagem ao amigo, já ido da vida.» Encaminham-se para o carro, António distraído, passa pelo o carro uma vez, sem o notar, sempre na conversa com Jorge, lembrando-se deste em miúdo, magro como agora, defeito na fala, sempre cheio de genica, balançando-se de um lado para o outro, como este Jorge o faz.

«Será mesmo o Jorge, mudou, mas desde os catorze anos que não o vejo.» -«Então com que idade estás tu?»- pergunta-lhe e este treme na fala na resposta: -«Quarenta oito anos!» – -«Mas, então? não pode ser. Eu tenho cinquenta e quatro, e tu não eras muito mais novo!»- Corrige logo o Jorge: -«Cinquenta e um anos.»– A correcção que soa a falso grava-se na memória de António. Jorge logo dispara perguntas sobre a mulher de António e filhos. Pergunta-lhe rápido: - «Quantos filhos? Tens tu?» - - «Uma filha inglesa.» - - «Pois eu também me fui embora novo» – E mais, -«Quantos mais filhos?»- A curiosidade de Jorge é franca. -«Que idade é que tem a tua filha? E os outros filhos portugueses?»- Jorge vai atirando na desconfiança de António: -«Incrível, o te ter encontrado...não estás muito diferente fora a queda do cabelo.»– Nota-se aqui uma certa malícia trocista da parte de Jorge. António pensa: «...E o teu estado ainda pior!!! Cabelo cortado, a esconder outra careca também!» pergunta António seguindo o jogo de Jorge: -«Os outros nossos amigos? Aqueles que andavam sempre contigo tens os vistos?»– A resposta sai rápida: - «Não! Perdi o contacto. As minhas irmãs por vezes escrevem-me a contar-me coisas deles.»- - «Sabes? Morreu o Zé!»- - «Não!! E como?»- - «A sida levou-o. O Pedro, queres falar com ele? É o meu advogado.»- - «Perdi o contacto com todos.»- - «E, a ti? Como te chamavam? Os meus irmãos mais velhos tinham uma alcunha para ti. Era...? »- - «O Fifas.» – - «Pois era.» – António passa-lhe em seguida a rasteira: - «E o teu amigo que andava sempre contigo, como é que se chamava?»- Vários nomes saltam em resposta. A expressão no seu rosto diz tudo, mas não hesita e quando António não diz o nome para conjugar com a sua história, muda e passa para outra pergunta sobre os filhos, e as idades destes. António apercebe-se onde está o carro. Ali mesmo. abre a porta a Jorge, o saco no porta bagagens, Jorge aconchega-se no banco do carro, António cuidadoso com a carteira e telemóvel, põe-nos na divisória da porta do carro. Pensa para si: - «Este sacana, toma-me por parvo!»– Decide levar o jogo adiante, a memória de Jorge, o miúdo, cheio de energia, que morreu segundo o relato de um amigo, conserva-se presente na sua mente e vai perguntando a este Jorge presente as perguntas como no jogo de gato e rato. -«As tuas primas como estão? Ainda moram no mesmo sítio?»- -«Sim ainda moram lá os pais. Elas dispersaram-se. Umas casadas outras para outros lados.»– Jorge rápido sempre nas respostas, descaindo-se por vezes ilusivo na resposta, saltando com outra pergunta. António contrapõe-lhe a técnica no questionamento e avança no jogo: - «O que é que fazes na África do Sul?» - Jorge responde-lhe: -«Trabalhei alguns anos numa empresa de informática, depois passei para outra.»– -«Mas e a tua mulher, o porquê de ir para o Porto?» – -«O meu velho disse que ela era da nossa carne e família.»– -«Mas ela era Portuguesa?»- -«Sim...! Os pais dela vivem em Cascais são religiosos, uns judeus estritos e afastados. Nem desejo a ninguém o que me aconteceu a mim: as duas mortas e despachei os corpos. E aqui estou.»– Diz António: -«Tens passado um mau bocado.»- Jorge na resposta: -«Preciso de descansar, ir para o Porto ter com a minha família e dormir. Almocei às onze, o piloto do avião, que conheci e com que travei amizade, pagou-me o almoço, mas depois disso não comi mais nada.»– António regista a contradição, Subsecretário de Estado toda a manhã, conversa do meio-dia agora: sujeito dispara sem medir o tempo. -«Então e a praceta como se chamava?»– Uma directa de António. -«Dom João de Castro, não te lembras?» – -«E as pracetas ao lado?»- A resposta evasiva, atirando logo uma pergunta. «A técnica deste é incrível!» pensa António. «Quando chegarmos à Estação de comboios, irás ver.» Jorge começa a evidenciar o cansaço perante o interrogatório: -«Então e o teu pai reformou-se? O que é que ele fazia? Já não me lembro. Contabilista? Administrador? Os teus irmãos, houve um que morreu.» – -«Pois foi o Carlos.» – -«E os outros o que é que fazem? Quantos é que são vocês ao todo? Eu já não me lembro. Diz-me.»- -«Sete, ainda nasceu a «cassola depois. A Sofia que tem agora 36 anos, a bébé.»- -«Incrível. Então em que bairro ficava a praceta Dom João de Castro? Diz-me lá, já não me lembro. Diz-me.»- -«Junto ao Técnico.»– Chegados de carro à estação, António comenta: - «Isto é muito difícil estacionar está tudo tomado.» – Jorge responde-lhe. - Não faz mal encostas aí à frente e pões as luzes. – António pensa, este é demasiado expedito, para quem viveu nestes últimos anos na África do Sul, conhece os truques todos de Lisboa e os seus estacionamentos. - «Ali não!!! Está um carro da polícia.» – Avisa Jorge e nota-se uma hesitação da parte dele. Adiante António encosta e saem do carro. Jorge toma a sua mala ou saco, do porta-bagagem, António aliviado por sair do carro e da zona do odor a suor de Jorge. Dirige-se com ele para dentro da estação e comenta: -«Vou ter que te pagar com o Multibanco.»- Mas olhando para a bicha de gente junto das bilheteiras resolve pôr um fim ao jogo, e directamente diz a Jorge: -« Olha eu não te conheço!!! e tu não me conheces de lado nenhum!!! não quero que me tomes como parvo!!!» - Tira da carteira uma nota de 5 euros, e Jorge de lágrima nos olhos, diz que na verdade, foi um erro tê-lo tomado por outro, mas pedia desculpa e de novo pede-lhe, um endereço para lhe enviar o dinheiro, e insiste pois era tudo verdade, a sua desgraça e o seu presente desespero. António recusa-se a dar-lhe o endereço e pensa que o dinheiro foi bem empregue, na aprendizagem da técnica de Jorge e de todo este seu modo de extorsão. Desde o início, e na sua continuidade, suspeitara e descobrira-lhe o enredo mas quis ter de algum modo presente a memória desse seu ido amigo de infância. Observa Jorge ao longe: este fica na estação rodando às voltas e olha para a fila de pessoas na bilheteira cheio de hesitações, olhando de soslaio verificando se António já partira. António sai da estação de comboios. Pensa para si que a experiência saira-lhe barato, lembrando-se do seu ido e falecido jovem amigo, interroga-se em seguida: «Será que este me pregou uma partida do lugar aonde está? Irónico!» E sentiu-se cristão. (3) «O Tonto Do Eléctrico» O Eléctrico do Príncipe Real, este cheio de realeza, leva os lugares todos ocupados. Francis em pé com uma amiga ao seu lado olha no vazio do corredor e no cheio do eléctrico. Uma voz faz-se ouvir e vem de um canto, um dizer de homem numa expressão palavreada, como: -«Isto é tudo uma desgraça! Eu por aqui e ninguém quer saber de mim! Saí ontem do hospital. O Governo olha para o lado e nada me diz. Não falam comigo! Todos querem o seu pãozinho e comem-no sem olhar para o lado.»- Um rapaz novo de uns 22 anos, vestido sombriamente, calças de ganga, barba por fazer, cabelo londo pelo pescoço, um ar moreno, olhos pretos vorazes de felino, sentado no canto do banco junto ao «guarda-freio» e assim fala. Insiste no diálogo de surdos: -«Saí do Hospital, ninguém quer saber! O Céu cai-me em cima, a Santa Trindade de Pé, e o Espírito Santo a voar...A pomba do Céu, essa de asas cortadas, essa que poisa na cabeça do Camões. Os «camones» vão ver, passamos por lá...»- Francis olha e pergunta-se: isto de dialogar com surdos é sempre a constante nacional. Decide então entrar em diálogo com o rapaz e puxa por ele: -«Fale! Não tenha medo! Estamos aqui todos a ouvi-lo!... Está com azar na vida? -» Um rastilho acendido por estas palvras, e que pega fogo que nem combustão espontânea...Olha para ele e e a partir do começo do diálogo, não mais se cala e sube o tom de voz para que todos o ouçam. -«Os homens não chegarem à Lua!!!» -«Então porquê?» -«Uma mentira!» -«É? Como sabe?» -«Um teatro, um filme «à-americana»!» -«Como assim?» -«Uma história, em si história. Vejam que o homem anda colado à Terra, quando se solta: a cola chama-o outra vez para baixo...» Francis pergunta.-«Cola?» - «Sim, sim veja: As marés, um mistério o mar sobe, o mar desce. Explique lá como é possível tanta água, mas eu digo primeiro...falam da Lua a puxar, mas a Lua é tão pequena para um mar tão grande...a àgua como na quantidade que há também funciona como cola...cola-se ao fundo dos mares, veja quando se mergulha: o peso da àgua cola o mergulhador ao fundo e por vezes não o solta. Morre bem afundado.» Grita as palavras alto e de bom som para se fazer ouvir, quase no berro bem sonoro e audível a todos no interior daquele eléctrico, e quase repleto. A aproximação da paragem de saída està perta, e Francis prepara-se para sair com a amiga. O «Guarda-freiro» zangado, solta alto a frase: -«A culpa é sua!!!». Agora vou ter que o ouvir até ao fim da viagem.»- -«Então e qual é o mal do senhor dizer: o que lhe vai na alma?»- -«Nunca mais se cala, e eu tenho o meu trabalho a fazer.» O eléctrico parado na paragem, gente atrás deles para sair, que faz Francis desistir do «não-argumento» e acaba por sair à pressa, ali para os lados do Chiado. Uma história que fica no suspenso dos anos, tal a chegada dos homens à Lua, trazida pelo eléctrico do Príncipe Real, que hoje já não corre nessa linha. -«Terá isto tudo sido uma viagem imaginada?»- Assim reflectiu Francis mais tarde, ao recordar este episódio. (4) «A Ceguinha» Nascida sem olhos, as peles da cara puxada pelas cavidades oculares, cega pela ausência dos orgãos visuais, puseram-na cedo e ainda criança a pedir esmola na cidade. No oposto de uns olhos sem cara, ficou-me gravado na memória uma cara sem olhos, e que não vê mas sente como Helen Keller. Uma pele clara e cabelo castanho encaracolado numa expressão estranha num meio sorriso sério. A sua imobilidade, perante o ruído entontecedor do caos de trânsito e movimento da multidão, não era o resultado da «não audição». Ela fala no pedido da esmola e ouve a resposta na queda da moeda no fundo da caixa. Passa horas no seu canto na mesma posição especada na vertical sem intervalar, mas dependente sempre do horário do seu agente ou mediador entre a sociedade e a sua condição de deficiente não-visual. A caixa preta dos cegos na cintura, atesta a condição de mendigo, sem outras protecções do Estado senão uma pequena contribuição. Sei pouco sobre ela e assim respeito a sua intimidade, sem nomes e sem histórias e pormenores. Uma figura que numa visão pública me apropriei para contar uma história. Recordo-me dela desde miúdo, dos meus doze anos. Marcava-se pela sua presença, sempre frente à Estação do Metro da Praça da Figueira, naquele canto perto da parede de um dos prédios. Vi-a de novo recentemente, depois de uma ausência de anos, e neste caso minha, já passados mais de quarenta anos sobre a primeira vez, que a olhara. A caixa de esmola será a mesma, ou outra igual, àquela que me lembro, polida e envernizada de preto como uma laca chinesa, e umas iniciais num prateado ou branco, pendurada ao pescoço por uma correia de cabedal e encostada ao seu ventre, com a ranhura para cima, e bem receptiva da moeda de esmola. Uma mulher de meia idade, quase considerada idosa, em que a vida passou-lhe, não debaixo dos olhos, mas no sentir da sua pele, e no grito da alma. A ligeira obesidade no quadrado da anca, bem aparente na sua posição estática, a excepção e prova que o tempo biológico escorreu-lhe na vida, de resto não mudara muito em cinquenta anos. Ela presenciou, ao longo do tempo, as grandes alterações no seu sentido ambiente, tal sob os seus pés, a praça mudou e no canto, em que se posicionava diáriamente. O Largo da Figueira foi alterado, o cavalo de D.João I na estátua andou de lado, para um outro centro na assimetria da praça, no propósito de ficar virado para outro cavalo: o de D. José I, no Terreiro de Paço. No abandono da posição original deixou a praça, um tanto coxa e estranha, na sua razão de ser e traça, e esta ganhou um ar mais sujo que no passado. O trânsito e a circulação venceram a primazia ao peão. Um corte de esguelha, que direcciona a sangria do movimento dos carros e autocarros, complementa a tortura sofrida pela praça, no seu novo estado. Numa esquina fora deste largo, ficam os vestígios, já hospedados num novo hotel, que são os restos do poço que deu origem ao seu nome: «Poço da Borra Tem», e a não esquecer a célebre figueira centenar entretanto desaparecida, que deu o nome à Praça, outrora aqui plantada pela semente, do fruto comido e cuspido perto da bebida de uma água fresca. Uma árvore desfigurada e nua de folhas no Inverno, frigida de ramos, não decepados ou cuidados, que aguardava pela raiz aquele suave calor da Primavera para numa explosão de verde se fazer anunciar contra o azul do céu, sem branco de núvens. A àrvore pelo verde falava e cantava e os pássaros aclamava. No Verão braseiro a fresca figueira abraçava os frutos verdes que cresciam no aroma da terra mãe e pelo perfume libertava-se na dança do tempo das mudanças. Figos maduros que caíam entre o chilrar dos pássaros, e a canção da vida, a árvore afigorada cantava: da bela figueira que só o nome resta, na pobreza da vida presente que corre pelo largo. Uma praça que chora e evoca em desespero: uma nova àrvore. Um poço que no decorrer da Civilização Lusa, virou em «borra», nessa mncha de matéria suja que flutua à superfície, para ser secado e esquecido. Localizado frente a uma das portas da cidade, voltada a Oeste do Castelo, cujos vestígios de cantaria e arco ogival, ainda são visíveis na parede entalada de um prédio. A senhora invisual, assistiu às transformações ocorridas e na mudança da classificação do seu estado de deficiente, no trato e nos papéis oficiais, tendo sido nomeada invisual em substituição de cegueira oficial sem que o seu estado físico se alterasse. Mas no curto tempo da sua presença no canto histórico da praça passaram-se coisas de transformações profundas e mudanças sociais, para depois se perderem na confusão pela negativa e no retrocesso, como atestam os seus recibos pagamentos por invalidez, de cegueira a «invisual», talvez pela influência crescente dos audio-visuais ou idas à praia da elite no seu cuidado visual diário. Vocabulários que mudam pela teimosia e criatividade egocêntrica do funcionário, e resultados que permanecem no-não-ver, como se a cura dos males fosse o remediar na palavra. (5) «A Fala Só» Passa por António sempre acompanhada e olha-o no seu olhar preto penetrante e brilhante. Comenta para a sua companhia num discurso por este não audível, qualquer coisa que prevalece no seu estado de solidão nua e crua. Vai elegante dona de uma silhueta esguia bem proporcionada na sua forma feminina sempre com aquele toque de toilette esperado numa estrela de cinema. Exibe um lenço de seda pura e de fantasia, atado ao redor do seu cabelo encaracolado castanho escuro que lhe esconde uma testa bem desenhada em plena harmonia com o rosto. Sobressai na sua face um nariz arrebitado, e um pequeno sorriso rasgado entre lábios, ligeiramente carnudos, sobre um queixo quadrado. «Jeans» propositadamente rasgadas por cima dos joelhos, o que nos deixa reparar na sua pele castanha clara na perna cheia e comprida. A sua camisa leve e florida roça as flores do corpo, no andar equilibrado, no cortar dos ares, no abrir das ondas das àguas na praia. Hesita ao passar por António, vira-se e dobra-se e fala de novo para a companhia que a acompanha persistente. Impávido e estupefacto, este não resiste de a olhar de volta, hesita em meter conversa, medo de ofensa, receio de uma possível reacção negativa da parte da imaginada companhia, e atacanha-se. Pensa no amanhã, na ironia, no perguntar-lhe «hoje vem só»? Ela passa de novo por este, ao final da tarde. Mudou de «toilette» vem mais cuidada e António repara que ela vem menos agitada, deixou de prestar atenção à imaginação. Não traz companhia às claras, e de novo o cruzamento de idéias para António: ela aparenta estar mais séria do que na manhã. Ao passar no passeio estreito há um barulho ligeiro de algo que cai, e ela olha para o anel na sua mão, com uma pedra semi-preciosa num torcido de arame de prata em redor do dedo, e diz reflectindo: -«Ai! deixei cair a pedra! perdi as pedras!»- Fica imóvel e fala de cara dirigida ao horizonte do fim da rua, sem dar atenção a António. A oportunidade surgiu a este dizer qualquer coisa como: -«Não se preocupe! pedras são pedras. Poderá arranjar outras.»- António, verifica de novo a calçada e nada vê, e dissaude-se de tentar qualquer diálogo, sem que lhe fosse dirigido uma palavra e acanha-se mudo, lembra-se do nome da travessa na cidade com o nome de: «O Fala Só». Hoje como ontem vem e irá só: «A fala só». (6) «O Louco das Esporas de Montar» Sacha passeia-se acompanhado por uma amiga, mulher alta elegante de nariz delegado pronunciado e cabelo castanho, cuidado no extremo, uma mulher morena, de «raça» e nervos judiciais. Ao fim da tarde no final do fim-de-semana num dos mais antigos centros comerciais da cidade, os dois olham as boutiques. Na despedida do Domingo nas poucas horas do que lhes resta de um merecido descanso dos trabalhos e arrelias profissionais da semana. O homem sente-se feliz e consciente no passeio dos «tristes». No comprimento do corredor do centro comercial depara-se-lhe a figura alta de um «cavaleiro» apeado sem cavalo, vestido a rigor, botas de montar, calças beges, camisa na mesma cor e coberta com um colete de camurça tingido por sangue. Na cara àspera e torturada de expressão ríspida, uma barba por fazer bem preta, contornando um bigode espesso. A face bem pálida com dois olhos negros de predador, sob uma testa direita e plana perpendicular a um cabelo que lembra uma espessa escova aparada no bem negro. O andar abalançado e perceptível ao longe, trai a expectável sanidade do «Dom Cavaleiro», que acelera o passo focado em Sacha, num andar desengonçado e rápido, de braços caídos de cabeça, um olhar depravado e fixo. A cena que se segue terá durado apenas uns segundos, mas pela gravidade ficou-se-lhe gravada na memória, e sentiu-se no final vítima tramado na trama. Na aproximação do louco frente à montra da loja onde o olhar alienado da amiga se encontra colado a umas calças, um outro olhar acusador e raivoso se solta da personagem, sem que a senhora percebesse alguma coisa na sua aproximação. Esta olha a disposição dos artigos e o ambiente interior da loja: Um interior para si já conhecido, o balcão prevísivelmente no fundo da loja, duas empregadas com bons ares e bem elegantes passeiam-se sobe o chão de réguado de madeira de carvalho, num passo encenado por horas de treino. Olham de uma loja vazia de clientes e reparam nela, um atracção hipnótica, uma percentagem na venda de algo a vender provoca-as no olhar para o exterior e para a possível cliente. As paredes da loja com vitrines estreitas tanto em madeira e vidro sobressaiem aos olhares desta amiga, que no entanto, num pensamento focado, se abstrai de tudo o mais, em prole da compra de um par de calças. O ambiente interior convida o vir. A atracção de entrar é enorme e ela olha no contínuo pelo vidro transparente e limpo. Foca o olhar no arrumo dos artigos expostos com aquela sensibilidade feminina, no crescendo e na propositada evidência do artigo. Vê o par de calças numa cor fora do vulgar num mesclado de beje em azul e muito fora do vulgar pela sua criatividade exclusiva. A sua preferida boutique bate todas as outras na exposição de artigos pela individualidade e agora estas calças deliciosas persistem na retina. A sua sensibilidade no auge, na ponta do desejo e decide-se, murmura «muda» entre lábios cerrados para si: «São estas que quero, estas que me convêm, são estas que eu desejo, é mais forte que um orgasmo que eu possa ter com este otário aqui ao meu lado. Quero-as sim, a estas calças de ganga, o preço é alto, mas estou-me nas tintas. Ai, imagino o vesti-las. Ai e as calcinhas que vou vestir com elas: «Sim preciso de umas calcinhas novas! Mas ficam para depois aqui não vendem underware. Ligam tão bem com as minhas botas castanhas». Quando Sacha olha olhos nos olhos «o louco cavaleiro», na perplexidade ao reparar que este leva umas esporas-de-montar sujas de sangue em cada mão. Num vento ameaçador este dirigiu-se a si, no intuito de o agredir, gritando as palavras numa raiva jamais vista por Sacha: -«Tu por aqui? meu sacana!!!»- Um prenúncio do que seria o seu curto episódio vivido com a moça, nesse futuro que se adivinhava cheio de zangas e acusações formais mas na ameaça e sem procuração oficial. Este não viu por perto qualquer «segurança» do centro, no desepero e pensou que teria de ser ele, e ele a sós, a ter que lidar com o transtornado «cavaleiro», de fraca figura. «O louco», um estranho desconhecido para Sacha, que nunca o vira mais gordo ou em cima de um cavalo, ou montado num asno. Mas num último segundo Sacha foi salvo pelo braço dessa sua amiga, e arrastado para dentro da «boutique de roupas de senhoras», por mera coincidência, sem que ela se tivesse apercebido do perigo que lhe fazia frente. Acabou por lhe comprar naquele instante demorado: «a mais cara das caras», umas calças de ganga como presente-surpresa à menina! Anos volvidos, pensa se esta percetível realidade não sonhada teria sido cumplicidade dela naquele nível paralelo do tempo universal? Com o possível ameaçador assassino? O «seu estado» não esteve tão normal em si no acto da compra. Notara que o «louco» se esvaecera, tal como aparecera, depois do pagamento ter sido efectuado e o presente oferecido como surpresa na saída da loja, e o beijo em reconhecimento longo e demorado. O movimento de clientes no centro comercial continua no avançar das horas de Domingo. Na cidade o dia escorre pela noite no esquecimento da mancha em altura do edíficio do Centro Cmercial, que pela sombra avança pelas redondezas. Nos céus não vísiveis ao casal as cores alteram-se mas evidenciam ainda os rastos brancos, as linhas desenhadas no azul, nuvéns de estrias lançadas pelo homem na natureza pelos aviões, e que numa repetição de ao longo de cinquenta anos vão largando traços de químicos corrosivos à saúde. Aviões que lavram os ares com a poluição química de má digestão pela mãe natura, as rectas vistas da terra, arqueadas nos ares, entre dois pontos do globo, embalagens em movimento carregadas de gentes, que perseguem a nova globalização dos séculos, na mistura e ingerência de países sobre outros. Anulam-se os correios das nações, mensageiros de más notícias. A carta, a missiva, esta no desaparecimento, e no retorno ao remetente. Fica-lhes um serviço a ser reduzido, a obra de uma Rainha do século XVIII esquecida, a comunicação entre o povo mais pobre e no decrescimento demográfico: uma visão de uma élite neo-liberal num futuro reduzido e fica a entrega da mensagem no aéreo dos céus trazida por anjos, esses que levam no seu umbigo o ovo estrelado do sexo. Uma estação de correio vazia, fechada por ordem de uma mau governo, uma assinatura medíocre, numa entrega não registrada. Má conselheira no fechar das contas, na compra de um selo, talvez a primeira abstração tirando «a moeda» do dinheiro, de um serviço financeiro feito pela troca e entregue ao domicílio. Dentro de um avião que partiu do aeroporto da cidade e agora sobrevoa o Centro Comercial, vai um conhecido de Sacha um seu amigo John rumo a Londres, estivera em Lisboa em trabalho. Os dois já não se vêem há mais de dez anos. O comandante da nave aérea, diligente dá aos passageiros aquela oportunidade de verem o dia avançar pelo lusco-fusco e alcançar o bréu da noite sobre a cidade. John pensa em Sacha naquele instante e interroga-se no que lhe terá acontecido ao amigo, desde os dias de Londres, em que trabalhavam juntos. Onze horas para oriente, nessa diferença de fusos horários, mas dado o mesmo instante no espaço e no giro e na órbita do planeta, uma outra sua amiga Melanie prepara-se para intervalar, naquela hora da manhã, o tomar um chá, no edíficio de oitenta andares onde trabalha, diáriamente, como secretária. Sacha está longe do pensamento, mas naquele instante, a amiga em Sidney recorda-se pelo aroma do transpirar o próprio odor do suor de Sacha, quando faziam amor num parque em Londres, naquela fim de tarde de Verão de um Domingo em Blackheath, escondidos pelos arbustros. O cheiro da relva cortada nunca mais a largou, insiste hoje e agora, gritar-lhe do canto da memória, onde as recordações fazem eco, em reaparecer pela sensação e naquele movimento de levar um chá ao lábios. No rodopio do beijo de encontro com a borda da chávena, lembra-se dos lábios de Sacha neste instante. Recordado no simultâneo, nos tempos de vida e em separado, Sacha ignora e vive o seu novo presente, sai da loja de braço-dado com a amiga, alheia e contente, com este seu «presente». Na loucura solta, Sasha soltou-se uns meses depois, na «fugida para a frente» da amiga, sem que o sangue fosse derramado, ou a «Procuradora» o ter procurado, até à data. Já lá vão uma dezena de anos, e pela caducidade dos processos de amor, alguém, um outro ficou tramado. Sacha está safo! (7) O «Arrumador» do Largo da Misericórdia O arrumador de carros que corre na velocidade do carro na procura de um lugar de estacionamento, ali no largo da Misericórdia. Esta Praça que já se foi, na paisagem alterada no melhoramento, o seu «dono», era esse rapaz forte de músculos, de ombros largos e algo parado na sua expressão. Voltei a vê-lo, uns anos depois já magro e de ar um tanto doente na perda dos quilos, num emagrecimento doentio. Na noite Lisboeta, a zona por excelência, era de grande procura na solução do problema do arrumo do carro. As obras do Largo de Camões e do seu estacionamento ainda não tinham começado e parques de parqueamento na zona não existiam. A Polícia sempre atenta efectuava na prontidão o reboque de uma viatura mal estacionada. O negócio no vai-e-vem era muito lucrativo para os actores fardados, sendo o parqueamento e os respectivo estacionamento pertenças e bens de um «Chefe da Polícia», algo empreendedor com a sua base organizada convenientemente por perto, na zona das Amoreiras. O papel dinâmico de um estacionador era deveras importante e útil para o comum do distraído motorista na procura de um lugar livre, e livre de multas e do perigo do reboque policial. Pedro, chamado assim para o salvaguardar de uma nova conquista, era hábil no seu corpo forte ao correr a oferecer os seus serviços de guia e controlador de trânsito, e do seu arrumo em prol de um novo cliente. Numa voz profunda, e grave directa ao assunto da troca comercial, dizia: -«Seguia-me!»- E de repente punha-se numa correria e no virar da esquina nas ruelas do Bairro Alto nos dirigia para um espaço disponível. Era sábio e pronto na descoberta e achamento no arquivar a viatura. A característica de não ser pedincha fazia parte do seu carácter, nada de consumo de drogas, e não havia uma palavra composta de se-faz-favor, mas sim o: um obrigado sai-lha pela voz ressonante e surprendia o proprietário do carro pelo o eco desta nos edíficios circundantes. António num final do dia seguiu-o até ao ponto de encontro indicado por este. Pela surpresa testemunhou uma conversa com um dos moradores do Bairro Alto enquanto de janela aberta esperava pela amiga depois de arrumar a viatura num canto ou esquina da Praça graças aos serviços deste. António sempre jurara que um encontro de uma paixão de uma dama da sociedade por um arrumador de rua de automóveis seria sempre uma coisa impossível de se presenciar, ou de acontecer, coisa contra-natura no seu meio, por uma descriminação de bens: uma dama nunca estaria interessada num rapaz ou homem de posses fracas e cuja tarefa diária consistia no direccionar uma viatura atrás de outra para um lugar livre da sua zona, sem que uma fortuna se amontoasse bem estacionada nos seu bolsos descozidos. Passou a confessar que se enganara e agora apresentava como prova e evidência a conversa de Pedro, que segundo presenciara e ouvira já numa continuação a partir de um dado ponto, e pelo respeito a uma história de amor, fechara os ouvidos quando percebera o enredo numa descrição do banho de imersão dado pela senhora de boas intenções, no esfregar das costas no jogo de sedução no «limitado»: -«...Tratou-me tão bem nem imaginas...Encheu a banheira, água quente com espuma...mas bem cheia! Despiu-me e pegou nas minhas roupas e meteu-as na máquina de lavar, levou-me pela mão depois para eu mergulhar naquela água bem-cheirosa, coisa de mulheres, sabes? Fez-me deitar no banho e sentou-me reclinado e ela debruçada em mim começou pelo pescoço, depois com um copo de plástico molhou-me a cabeça, o cabelo e a cara, o pescoço e depois os ombros. Tinha uma mão de fada, pos-me champô e esfregou-me lentamente os cabelos. Lavou-me em seguida, fez-me uma festa na cara com uma meiguice que eu não sabia poder existir, passou aos meus ombros e depois ao meu tronco, esfregou-me as costa, não te digo nada...Com um jeito!!! Sentiu em seguida a musculatura aqui do rapaz. Sabes como eu sou forte. Ela corava mas não se desmanchava e eu não lhe pedia nada. Passou depois para os meus pés e um-a-um massajou-os. Com o corta-unhas, um desses grandes cortou-me as unhas dos pés ali, imagina... Depois pegou na minhas mãos e fez igual. Olha para elas! Olha como as minhas mãos estão!...Depois lavou-me cada perna e eu por respeito pus a minha mão no «Pedro II», mas já estava a crescer, mas escondi bem. Pediu-me a certa altura para me por de pé e aí lavou-me com o chuveiro e disse-me: -«Tira daí a mão para te lavar!» «e olha... não te conto mais essa parte.» -«Conta lá! não tenhas medo!» -«Uma senhora tão meiga e boa, deu-me depois do banho, uma água de colónia do defundo e umas roupas para eu por. Uma amiga de peito! ela é! Fez-me um jantar, uma maravilha, e eu ali sentado na sala de jantar cheia de «biblots». Eu olhava para tudo o que era canto e pensava na minha sorte. Na sobremesa, sim! também tive direito a uma! falou-me como mel e disse-me: -«É tarde Pedro, fica cá a dormir, gosto de ti. Amanhã sais cedo para os vizinhos não verem!» -«Sabes? ela é uma senhora respeitada e bonita à sua maneira. Que cama! Aquela! Lençóis pareciam de seda e tão bem cheirosos, dava gosto. Eu parecia uma criancinha, um puto!» -«Então e depois pá? O que fizeste?» -«Coisas de homem!!! tratei-a bem!» (8) «O Ás Do Aceno» No esquecer da morte, no tempo passado, no presente do futuro, no receio do apagar da memória e eis-me escrevendo sobre alguém que conheci quando eu era miúdo e que sempre gostei pela simpatia e respeitei pela sua singularidade, daí o escrever estas poucas palavras como se fossem um abraço amigo neste singelo elogio. Não irei mencionar datas para me poupar da forte emoção, no olhar do tempo passado e da vida corrida debaixo deste meu nariz. O «Ás da Canastra» aquele senhor do «Adeus» no Saldanha, um adeus sempre presente aos carros que por ele passavam, no vai-e-vem do passado para o presente. Necas, cunhado e irmão de primos, diria também feito meu primo pela proximidade, conhecido pelo acenar aos carros, frente ao velho Monumental que mais tarde passou a ser o Centro Comercial ali na rotunda do Saldanha. O mesmo desaparecido cinema e teatro por ele tantas vezes visitado na companhia de sua mãe e familiares, como um bom fã da «revista», de Amália e da Sétima Arte ou cinema. Chegava agora pontualmente ao seu canto público, e pensava na acção altruísta como uma tarefa diária. Arranjava-se «no impecável» com o seu sobretudo pêlo de camelo, para resistir ao frio e vento da rua no Inverno. No Verão vinha mais ligeiro mas conservava a sua permeditada elegância. Passava horas sucessivas fixo e parado persistentemente no mesmo local, e atravessava todas as estações do ano anos a fio, sem ser movido pelo desencorajamento de amigos ou familiares. Óculos de tartaruga como desses do «Onássis» sobre um nariz delicado, e olhos pequenos castanhos em permanente alerta, cabelo cãs recuperado num longo penteado para trás. Uma compostura educada de ombros estreitos num corpo direito, e nessa idade do início dos setenta. A voz directa e timbre que ecoava pelo grave, num discurso sentido e muito seu. Na mão levava um saco de plástico, desses das compras, a sua provável lancheira para o apoiar na jorna. Recordo-me dele como rapaz novo que regularmente participava no jogo da «Canastra» com as minha tias. Um «Ás» na execução, sempre o parceiro ideal, aquele que sabe o jogo de cor e salteado, aquele par procurado pelas velhas senhoras como na dança de salão, para que no toque de sapato debaixo da mesa, pudesse corresponder às ânsias e respostas de um bom jogo...Um pequeno sinal de satisfação, um fechar de olhos e uma continuidade no sucesso de fazer «vazas». O «solteiro» rapaz novo sempre procurado como bom parceiro no jogo. Houve vezes que o rapaz Necas não compareceu à mesa do jogo e eu substitui-o nessa pareceria com as tias. Teria eu uns doze anos, e sei que eu ganhava bem na «Canastra» e dava boa sorte às «parceiras». Ganhei uns dinheiros nessas vezes, o suficiente para comprar um maço de cigarros da marca «Benfica» para fumar com os amigos. Mal saberiam as tias do destino ao dinheiro, desse meu ganho e que fora perdido por elas. O tempo jogou-se nos tempos, e o gradual desaparecimento de todas as parceiras do jogo, de gerações mais velhas, deixou-o perdido para que na procura encontra-se uma razão de interagir com um público, «pela soma e subtracção», e o trabalho ou profissão secundarizados na satisfação pessoal. Necas sempre um virtuoso no uso da memória, plantado agora na rua, a partir da tarde até de madrugada, contava os carros como no jogo de cartas, memorizava as placas das matrículas. O «Ás», posicionava-se à esquina da meia rotunda, projectava a emoção e o carinho pelo próximo, no gesto, no aceno ao carro que passava. Gravava para si na memória as respostas, os naipes, as sequências dos movimentos e somava os trunfos, damas e valetes, jokers e ases baralhados no jogo da vida para no final do jogo na madrugada seleccionar o resultado e dizer para si, qual a perda ou o ganho das reacções das simpatias dadas na volta, na troca de acenos das gentes e motoristas dos carros, nesse somar e subtrair das respostas humanas: um verdadeiro «Jogo De Paciência. Coisa simples, tal o bom-dia, tarde e a boa-noite, contá-los, perceber a reacção no básico, na maré da gente, perceber e estrela do mar, essa que brilha no meio do vazio e submersa na consciência das pessoas. Não era pedir muito, apenas receber o aceno na resposta ao seu. O motorista surpreendido perdia-se por vezes, ao ler o sinal, o acenar como um perigo do peão: se este iria ou não, atravessar à sua frente. Se seria uma chamada para o «taxi». Na hesitação não lhe respondia para o desgosto do acenador. As primeiras vezes que passei pela sua presença neste local, surpreendi-me eu, também, na hesitação e para depois ao reconhecê-lo habituar-me na resposta ao aceno, tal como se reconhece um velho amigo no passeio e não se pára a viatura para cumprimentar no directo, naquele toque, no abraço, o amigo que não se vê há anos. Confesso ter havido uma ou duas vezes que o ignorei no cansaço e na surpresa, para depois perceber o que tinha feito a um velho amigo. Mas quem não o fez? Para depois se arrepender ao dar pela sua falta na saudade? O município ou a Cidade de Lisboa tem a partir dele, da sua presença ida e na sua lembrança, aquela oportunidade de festejar, o melhor das qualidades humanas: o de celebrar através de uma estátua, tal a do poeta Fernando Pessoa no Chiado. A não esquecer o aceno articulado pelo cotovelo do braço, como nesse seu jeito muito próprio, o de perpetuar na memória dos cidadãos esse seu gesto e dedicação ao público lisboeta. Uma estátua em bronze a ser posicionada na mesma esquina, nesse canto privilegiado por ele, no seu trabalho e dedicação ao ser humano, e de fazer passar a sua mensagem. Temos que nos lembrar das nossas fragilidades, dessas que nos protegem de um abismo sem regresso, lembrar-nos da nossa qualidade de seres humanos que somos, e em plena consciência negar esses outros constantes predadores desta nossa raça, que se reflectem no desprezo e na ignorância propositada dos outros. Obrigado Necas, deixaste a tua obra na memória de todos, nesse «adeus», agora e sempre prematuro. (9) «A Oradora» Ao descer a Avenida da Liberdade a passo de turista, António depara-se com um vulto vermelho e agitado tal uma papoila ondulando ao vento, o símbolo do armísticio, ganho no serpentear pelos milhares na brisa nos campos da Flandres, quando a primeira guerra do mundial terminou, comemorada em pedra ali em frente à Rua do Salitre. O tempo e a chuva corroem no presente, passados os cem anos, a estátua a ela dedicada em nome de: «Aos Combatentes da Grande Guerra». Na sua aproximação conseguiu distinguir melhor a imagem e trata-se de uma mulher elegante vestida de vermelho, uma morena expressiva de cabelo bem negro e caído, pele esbranquiçada, com uma figura bem típicamente portuguesa de curvas pronunciadas e belas que contrastam com a pedra e pobre estética da estátua. Num constante frenesim de atarefada a dama vai distribuindo dizeres aqui e ali ora numa reprimanda, ora num discurso fluido mantendo sempre o olhar virado para a cara no topo do monumento. Evoca o nome da República, os nomes de personagens que outrora foram influentes, ameaça célere as personagens, cita penas de prisão efectiva e perpétuas. Circula numa correria, numa dança ritmada ao redor da estátua, para de repente no intervalar, e lá vem mais do seu acertado e directo discurso. Na sua inquietude apercebo-se que está consciente da boa escolha, a de não diferenciar: o de falar para uma estátua ou para um outro mais vivo actor do sistema que nos ostracisa pela gelosia e indiferença. António não quis intrometer-se na chaga, na ferida aberta pelo discurso desta heroína que desafiava a frieza dos interlocutores, confiante que não poderia ir em seu auxílio, passou de lado sem que nenhum dos presentes tivesse dado por ele. Passaram uns anos e um outro encontro aconteceu naquele mesmo tempo quando Aníbal Cavaco da Silva era um descolorido Primeiro -Ministro. O cenário agora mudara e a geografia do país, alterara-se na trama da modernidade, de fios de auto-estradas. António ia de novo apeado no seu passo, desta vez lá para sul do País, num seu passeio, quando depara-se-lhe a mesma senhora ao redor de uma outra estátua na Cidade de Loulé. A mesma combatente bem viva, trajando o vermelho num vestido mais curto e numa actuação mais rebelde, numa voz estridente e mais alta daquela que António conhecera uns anos antes. Deduziu que a mulher era algarvia e levara a mesma mensagem intemporal de Lisboa para Sul junto de uma impávida e nova audiência. Ao ouvi-la apercebeu-se na evidência de uma personagem viva e inconformada, fazendo frente à gélida multidão, que ainda hoje se confunde com a passividade da vida, e os papéis de notoriedade das estátuas, estão invertidos: ela é a heroína. (10) «O Maluco do Apito» Um silvo, um apitar que assusta pela surpresa, frente à Estação de Benfica, naquela praça, vindo de um canto de um banco público junto a uma parede de má qualidade encontra-se sentado o responsável pelo aviso: «Pchipchiuuuu». Parece dirigir o trânsito, tal o silvo do apito, mas agora descansa. Um homem dos seus setenta anos enérgico, muito magro com o cabelo branco cortado rente e fardado à militar: uma camisa leve de camuflado com divisas de «major» nos ombros, calções de caqui que expõem dois joelhos magros. Uma cara alongada e bronzeada pelo sol e sujidade, vestígios do vaguear sem poiso, num tronco dobrado e ombros encolhidos pela idade, sentado descança de pernas esticadas e não deixa de soprar o apito. Fardado para uma campanha militar nos trópicos, mas apanhado em flagrante na cidade de clima temperado e no desepero de um estado civil na teia da indiferencia do batalhão dos seus pares, dos seus concidadãos, dos seus irmãos. Vagueia de novo pela rua em nova missão, como um verdadeiro batedor militar frente ao seu pelotão que o persegue pelos passos na memória, olha o passeio no horizonte e não distingue o inimigo do amigo e lá vai mais um assobio estrindente prolongado que persiste no eco dos tímpanos... O cenário urbano triste e na desgraça pela má construção e urbanização, onde a paisagem do capim é mais colorida e se move sobre rodas serve-lhe de mundo, e lá vai ele bandeirante destemido a avançar rápido pela selva urbana adentro. Uma imagem em movimento que aos observadores colaterais não interessa. Passeios de calçadas brancas evidenciam a mancha que se move célere, e camuflada. O resto de uma vegetação luxuriante pintada sobre tecido cortado à medida talhada do nosso herói. Um homem encontrado em si e perdido na comunidade e sempre empurrado pelo dizer dos seus companheiros de armas presentes: «vai morrer longe!». (11) O Empregado do Restaurante No vai-e-vem de visitar uma amiga no Bairro Alto, as minhas idas e vindas diárias ficaram mais coloridas ao tomar a subida das Escadinha do Duque ali ao lado da Estação de Comboios do Rossio. Passo frente à aquele restaurante que se espalha pelos degraus da realeza e o empregado dirige-se a mim, cada vez que por ali passo com a mesma frase sempre insistente: -«Dinner?» -«Nã!» -«Oh desculpe!» Um olhar de surpresa perante a minha resposta e diferente como há dias ali para a Rua da Prata: -«Lunch?» «Nã, obrigado! Where are you from?» «Bangladesh»- «Fala português?»- «Litle, pooouco...»- «Oh!» Ou na Rua dos Correiros: «Dinner?» A apresentação de um menu de capa dura servido como arma de arremesso e disposta a convencer o mais céptico dos clientes frente aos meus olhos. -«Nã! Obrigado!» Seguido pelo «french waiter shrugg» e não liguei mais e continuei o meu passeio. E na Rua de S.José: «Lunch?» - «Nã! Obrigado! Bangladesh? «No Pakistan»! «Ah! Belo país! Lahore, Karacchi! «Yeah, Yeah, Norte...» «Ah! Thanks!» Mas voltando às Escadinhas do Duque, a pergunta foi repetida no dia seguinte e a mesma resposta dada, mas agora seguida: -«Dinner?»- -«Não tem importância, sou português e já jantado»! Continuo, ao perguntar-lhe: -«Não se lembra de mim, de ontem e da véspera?...Raios, passo aqui tantas vezes, e toma-me sempre por um turista alígenea.» -«Deixe lá! agora já não me esqueço. Desculpe!»- -«Nada de mal! Bom trabalho!»- A minha vez chegou, essa de perguntar algo insistente «revirando a cabeça ao prego» e na descida dos degraus do Duque depois da meia-noite, pergunto eu: - «Já acabaram?»- Olhando eu para os espaços mais livres à passagem dos transeuntes, com menos mesas, umas tantas já arrumadas e um estrado há pouco sobre os degraus agora já levantado. «Serviram muitos jantares? - «Sempre!!! Andou bem? Vai para casa?» - «Venho de uma visita!» - «Essa sua visita nocturna...A mesma? Médico de família?» - «Uma doente a requerer cuidados paleotivos! Até amanhã...» Passaram-se meses sem que eu repetisse o meu circuito, mas de novo apareceu aquela necessidade de passar por alí reguralmente. Numa outra noite nesse repetido padrão da vida, vindo eu de uma outra minha visita e no final do caminho para a Estação do Rossio vejo-lhe ao longe o vulto familiar, o do empregado meter-se no mesmo comboio que o meu, um minuto antes de mim. O estado geral dele era arrasador, de um olhar fatigado, não demorou a adormecer no seu banco da carruagem na linha para Sintra. Quando passei por ele, já dormia e longe de mim disturbar-lhe o sono com a pergunta: -«Super? Sopa? Acorde está esfriando!»- «A Poetisa» Sábado à noite pelas vinte e uma horas estou frente, a uma livraria que fecha na falência pouco romântica, nos tempos que correm, na espera de amigos solidários com a justa causa de negação. A resistência ao fecho é levada a-cabo pelos trabalhadores de anos, e expressa pela leitura de um manifesto. A áspera e crua realidade bate-nos a todos na face. A penhora pelas finanças do imóvel feito móvel que muda de mãos. Uma derrota da cultura, e uma mais valia ganha para o supermercado. Este destinado a transaccionar livros para uma educação obrigatória juntamente com as cebolas, frutas, alhos e conservas...Fahrenheit 451 a temperatura da combustão do papel, mas no zero: a temperatura da frieza daquele que não edita mas que lê o outro plebiscito e que a todos é dirigido sob o «Diário da República», na alteração de leis de trabalho da relação entre empregados e empregadores. Emergem pela «propositada macedónia» os grupos maiores e que engordam neste jogo de «queres ler»? Numa resposta directa: -«Pagas e pagas, preto no branco! Esquece as facilidades do passado, esse a ser esquecido e agora vai ler para outro lado.»- Grandes grupos que apostam nas personalidades a serem sumidas, esses de uma revista «Hola» que escrevem no improviso o previsto. Os Jesuítas sabiam-no bem: que para lançar sementes do saber, cultivavam desde pequenos, sim às crianças, em objectivos directos, mas num olhar para amplos cenários construídos, e «num abrir e fechar de olhos» do tempo de uma geração surpreendiam a todos pela prova. «Um Sermão Aos Peixes», um exemplo, que das águas quietas se liberta laureado pela escrita do Padre António Vieira, vem-me à memória. Uma mulher jovem de espírito combativo surge a meu lado, e na minha surpresa tenta passar-me a mensagem dos seus poemas, frente a uma porta de uma editora que se fecha a todos. Esta porta de abertura de edição sempre barrada aos livros de poesia desta autora. A recusa de sempre, dos possíveis editores Lisboetas, que pela selecção e gosto, resumidos num presumido bom português, e que no caso recusaram vezes sem conta o versado texto. A livraria que agora se fecha no definitivo, para uma outra porta se abrir, na breve exposição à corrente económica e para enclausurar um espaço de cantaria vazio, a ser ocupado pela venda de comes e bebes rápidos, mas de digestão lenta. A rapariga fala-me ténue, a artífice das rimadas palavras, de uns trinta anos diz-me que encontrou de novo o Norte no vai-e-vem do escrever depois de um turbilhão rodopiado de vida. Apresenta-me ao companheiro, um outro lutador, mas neste seu caso mais guerreiro, solidário para com ela e no acompanhamento dedicado. A poetisa mostra-me as escritas de poemas, que no meio da gente e da «barafunda» não consigo ler sem óculos. O título do livro por ela mencionado no zumbido da multidão soa-me ao ouvido como: «Dias Que Se Passam Pela Noites».A representação de «um final» neste fecho da livraria, pela imposição dos tempos, um neo-liberalismo iliterato mais dedicado à lavagem e brancura do vil papel, pouco letrado mas no «numerado» entre a confusão dos juros do capital. Um «Bairro Chique» a mudar de «bolsa» e de mãos. O Martim Moniz que sobe lento o Chiado nesse lance-passo. Uma câmara municipal e «capital» a perder Lisboa e a perder-se no horizonte entre as sete colinas. No restôlho da cidade ficam os sinais de trânsito sem peões nacionais, estes que num jogo de xadrez são os primeiros a se perderem. O jogo da vida chegou à Rainha, «A Capital», e chegará finalmente ao «Rei», esse representado pela identidade viva deste País, porque há sempre adversários à altura, quando se olha para baixo e nada se faz. Um fecho ou um acabar na qualidade desses «passeios» no Chiado, um encerramento de portas que grita perante a invasão sem quartel dos turistas. Parasitários da beleza da cidade, perdem o dinheiro antes de chegarem ao país: nos agentes turísticos e nas viagens aéreas pagas pela digitalização nas suas origens. Pouco do material sonante chegará a nós habitantes da sofrida urbe. Na dieta comem e pagam em miúdos, deturpam a economia e gostos locais. Torcem o nariz aos manjares tradicionais, e trazem em atrelado pelos portais abertos ou nas suas mochilas: menus e empregados a baixo-custo, estes que de avental não se exprimem na língua de Camões, nem na de Moliére, mas na actuais línguas e desejos de Cameron ou de Merkel, pelo estóico e sovinice do vocabulário mal adquirido. Oriundos dos longínquos Paquistão, Índia ou Bangladesh, e de outras latitudes e longitudes mais áridas perseguem na ingenuidade e pela necessidade: «o sonho americano» na cidade lusa. Viajantes de estadias apressadas olham para a cidade como para uma bela mulher, e vão-lhe surripiando as virtudes até a largarem de vez. Abandonada correrá desesperada, olhando-se no espelho do tempo, no encontro de uma passado acabado e ido, tal como a velha rameira, sem que consiga seduzir um novo cliente pelo seu desgaste prematuro fedo, e franchona. As cidades sofrem pela sua beleza caduca, se maltratadas. Jogo perigoso este: o do lucro fácil que corrompe o sonho e a realidade e gera mal a cultura. Um «pronto a comer» a ser servido nas velhas instalações da Livraria, a troco de um mísero papel verde com a marca de uma união não existente que começa por «Eu...» de: egocentrismo e egoísmo, do avarento. Esse de quem o manda imprimir: o papel de frases compostas e letrado imprimidos nos livros deixou de ser ou ter. As páginas de Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (editado em 1953) estão abertas e prontas para a combustão. Pobreza e fome que na mente se encontram. Na descida encontramos: artistas que sopram bolas de sabão, artistas que manipulam ferros no ar, um outro activo mendigo que minucioso declara a esmola: quer para «antes, durante e depois da bebedeira». Gravações nas carnes de uns outros tantos, tal o timbre de selo em azul no encarnado da carne do talho, a sujidade marcada nas caras troncos e membros dos animais humanos. Humanos como animais, nos olhares implorativos e agressivos pela negação sucessiva da esmola misturam-se com o cheiro a combustível queimado no artesanal de um sopro bucal. O constante pedido que nos bate no ouvido: -«Não quero dinheiro, mas uma ajudinha.». O desesperado grito da alma do jovem e sem abrigo desempregado: -«Leve-me à pastelaria, tenho fome, não quero maçar, mas preciso mesmo...»- Pai e filho mais abaixo tocam o órgão e o violino de forma perfeita e virtuosa uma melodia de cinema, uma música do velho Charles Chaplin, «A Luzes Da Ribalta». Encostados a um canto contra a parede do prédio e a frieza da pedra, prosseguem na cadência da pobreza perante o aluvião de gente que desce...Alguns desses turistas pagaram demasiado para descer uma rua de Lisboa, na procura de algo singelo, e que pudessem dizer de volta a casa: -«Vi!!! olha as fotos.»- No entanto fecham-se num bolso cozido pelo coração insistente... Uma metamorfose nacional a desenrolar-se no vivo e «posta-a-nu» neste bairro «chique». O poeta Chiado mal se sustem no seu banco inclinado no seu pedestal maciço, frente a uma escadaria inconcebível e deslocada, de dentro de um dos prédios, da sua «devida» localização como em qualquer capital da Europa. O ilógico, o «caos» meditado e de improviso, tornaram-se as «palavras de ordem» nesta nossa sociedade. Resta-me a mim ordenar as palavras nesta descida e subida do Chiado e contar uma história: De perna cruzada o Fernando Pessoa frente à «Brasileira», continua como se falasse e na posição assumida: frio e em de estátua de eril, jamais vista pelos seus vizinhos. Representativa desse Ricardo Reis, ou do Alberto Carneiro e de outros noventa tantos. Delega-os, sim a eles de virem falar com os intrusos nesta visita ao seu apartamento de poucas assoalhadas, no prédio de uns sessenta andares esse o mais alto da cidade, onde no presente residem na urbe todos os companheiros letrados, todos vizinhos. Falta-lhe aqui neste seu canto derradeiro e por companhia, o recheio guardado do papel escrito, a riqueza naquela mala-de-porão. O colo e a face da estatuária coram em amarelo no esfregar, no assédio dos intrusos. A poetisa apenas umas portas ao lado, prossegue na sua tarefa de comercialização pós-criativa: a da venda directa da sua poesia que compôs no sossego do seu canto, numa leitura muda, agora murmurada alto, do algo que escreveu. Ela aproxima-se de um outro desconhecido, num suave deslizar bem feminino, e numa melodiosa: sopra-lhe a rima. (12) «Um Dia Marcado pela Aspirina» Uma saída de casa explicada pela compra de uma aspirina, um sossego para uma dor de dentes, essa corrosiva, essa de molares semi-caninos que nada têm de felino ou de lobo. Apodrecimento lento pelo devorar da bactéria e na dor escondida pelo cuspir ocasional e raro. Dentes e a sua dor ou saudade da sanidade, o primeiro sintoma de envelhecimento experimentado por mim desde os seis anos de idade, graças à desgraça de saborear muitos doces, chocolates e muito açúcar. Um envelhecimento precoce pela boca, não a de peixe mas deste ser humano sofredor desde tenra idade e pelo carnaval da «vista alegre» oral: no enfiar da porcelana em corredor, dentes seguidos uns dos outros, que fazem a inveja a qualquer tubarão. Pontes e coroas de glória que o engenheiro Edgar Cardoso nunca imaginara aplicar nas travessias dos rios, e que no aparafusar directo ao osso, se tornaram «coisa comum», entre falas de línguas estrangeiras e portuguesas, estas que pela fama obraram as suas pontes ou «obras de arte». Dentes e dentição, além da mordidela falta-lhe a noz, ao «Deus dá a nós», «a quem não tem sombras». No martelar, no mastigar está o ganho, tal a «Sevilhana» na castanhola e no «Danúbio Azul» de Strauss, a dentaça traça o som, a canção, e o rumo da digestão. Na dor imploro e não me dou por vencido, mordo a dor, grito o meu ai, digitalizo o número do dentista e preparo-me para uma saída ao Casino do Estoril, só com perdas e não ganhos, dentes para fora e o artífice mexerá na minha boca, e a enfermeira dirá: o doutor fez-lhe um jeitinho, são apenas:...De boca ao lado e carteira para baixo sigo a rua e no choque em cadeia que se segue na minha travessia de troca de passeios, pergunto-me se haverá dentista após a morte? (13) Ida Ao Hospital Dentário A zona do meu queixo encontra-se já naquele extremo estado de dormência, o que me empurra à viagem drástica, de uma ida aos serviços de urgência de um hospital dentário. No meu desespero da dor de dentes, espalhada pelos maxilares, acabo por correr várias vezes ao hospital. Esta pequena história narra o episódio da ida que surpreendentemente decorre atribulada. A causa, um pré-molar ou não canino, que no estado partido de há anos, agora desgastado, abriu fenda até ao nervo. Arrepiante ao leitor? - Sossegue que a dor foi minha, e prossiga a leitura, porque na vida no geral, está tudo interligado, e o episódio aqui narrado poderá ser de algum uso para si, na melhoria do futuro próximo.- Um tratamento caseiro este: num «trazer por casa» de um anti-inflamatório, e analgésico, mais antibiótico pouco eficaz no tratar e aliviar da dor. Este último descrito nas palavras tardias do dentista: -«Um antibiótico que, não presta para nada, o que se dá na farmácia atrás do balcão.»- Desloco-me nos transportes públicos, esse mesmo autocarro o no. 764, que uso para negociar a electricidade, quando esta é fechada no meu canto pela companhia da hiper lucrativa EDP (Energias De Portugal. Tempos esses de visitas repetidas à Loja do Cidadão, quando a factura está para além do atraso de pagamento. Essa companhia: a mesma proprietária da Fundação EDP usada para iluminar, de modo insistente, os maus gostos e os espíritos dos cidadãos, não queixosos pelo sofrimento dos abusos de contas mal- facturadas pelo excesso do seu valor real. Voltando à história, ia eu a caminho do hospital dentário, numa primeira tentativa, como último reduto na solução de um dente traiçoeiro, um meu amigo de outrora que crescera comigo e que agora envenena o meu cérebro e maxilares de forma dolorosa. Esperei e esperei pelo camião «Tir», para alguns e para uma outra gente chamado de: «autóbus». Na paragem, essa do transporte de utentes nada aconteceu: aguardei mais de meia-hora exposto ao clima de chuva e à dor. Acabei por desistir. Voltei de novo a casa, passado a hora do medicamento e da hora do meu tempo para tentar de novo, no dia seguinte, desta vez, já ao fim da tarde. Sentia-me neste dia ainda mais determinado e teimoso levado pela dor do que na véspera, e ao fim de mais de meia hora de espera apanhei o «autóbus». Cheguei ao hospital às 8.30 da noite pelos meus passos, para ser informado pela recepcionista, no final do percurso: -«O Serviço de Estomatologia está encerrado! só funciona das 8 às 8 horas da noite.» A resposta veio-me assim: -«...E eu a fazer horas para apanhar uma aberta: a pensar que quanto mais ao fim do dia, seria mais fácil de ser atendido...» No dia seguinte lá estou de novo, a meio-da-manhã. Faço-me atender e no meio dos pedidos dos cartões, pela recepcionista do Serviço de Urgências pergunto-lhe: «se também será necessário o cartão dos descontos do supermercado» esse que tinha comigo. Fiquei depois, arrependido de a informar do meu endereço, do e.mail. Senti que esta era uma nova forma de intrusão de privacidade. Um endereço desses, sei lá se será dado aos fornecedores das aspirinas, e afins. Quando o pagamento da taxa moradora me foi pedido, no valor de uns vinte euros, repeti várias vezes a mesma pergunta, pela surpresa: -«Quanto???» A minha resposta, saiu ao fim de uns instantes bem disparada: -«Sou desempregado, não tenho dinheiro!!!» A recepcionista não disse nada e continuou com a digitalização dos pixeis, e desistiu do pedido do dinheiro. Após o preenchimento das informações, lá entrei no labirinto interior do Hospital ao fim de uma espera de uns vinte minutos na primeira zona de recepção de doentes. «Nada mau», pensei. Entrei em seguida, para o que chamam a «triagem», duas mesas revestidaspor um médico e uma médica, vestidos de branco, e que na minha entrada, perguntam um ao outro: -«Quantos chamaste:» -«Três»! Responde o médico à médica. Para duas mesas sobra um doente, concluí. Fiquei de fora pela soma e subtracção, na ordem de chegada. O médico acena-me dizendo: -«Já o chamo! Quando veio a minha vez, este perguntou-me qual dos males eu sofria? Confessei-me do meu mal dentário. Digitaliza então a informação e em seguida, olha-me e fala-me: -«Vai descer umas escadinhas e vira no fundo à esquerda e diz à senhora que vem das Urgências!» Atravesso o corredor e desço as escadas. Penso que o computador influenciou-o ao dar-me a informação. Chego a umas obras de construção civil. Três operários encostados e frente às paredes, um deles usando um martelo pneumático contra uma delas, abrindo buracos, descascando estuques, massas e tijolos. O ruído e a trepidação constantes do martelo das obras sentido nos meus dentes, e eu impedido pela dor de os poder tocar. O som da máquina não me trás nada de bom. Um prenúncio daquilo que me virá a acontecer? Dirijo-me ao balcão da recepcionista da Estomatologia e...digo: -«Venho da parte das Urgências.» -«Espere aí! Olho de novo a sala da recepção e de espera, repleta apenas a dois terços... vem a resposta: -«Uma pergunta: só para eu perceber a espera: Quantas pessoas à frente?»- -«Não estão aqui pela urgência, será atendido logo que possível.»- Resigno-me como um intruso «não-convidado», sento-me na cadeira mais perto da porta da cirurgia, a aguardar e na espera. Um outro visitante já de idade faz a aparição na zona. Manifesta uma dinâmica surpreendente, cabeça de cabelo branco cortado e de fato antigo de três peças, que inclui colete. Senta-se atrás de mim na fila seguinte, e não hesita na insistência, de levantar-se e sentar-se num vai-e-vem constante: vai ao corredor, fala com um segurança e volta de novo ao lugar, e «toma!» lá vai mais um pontapé na cadeira onde me encontro. Fico pela compreensão que o individuo é um doente interno, e no giro pelo passeio matinal entre as portas do Hospital, entre corredores e zonas de recepção, mas que não se aventura ao exterior. A inconveniência no crescer e causada por ele é tanta, que mudo de lugar mal-acompanhado pela dor de dentes. Escolho um lugar simpático que acontece estar perto do WC, naquela fila de cadeiras meio-desertas. Pensei eu, que estaria naquela distância suficiente longe da porta do WC, mas enganei-me! Na má digestão da minha dor bocal, olho com surpresa uma nova vizinha, aquela mulher parecida com a «Olívia Palito do Popeye», de vestido creme e colado ao corpo quadrado de uma barriga encolhida e ondulada: Pernas magras saltitam da mini saia, no giro da sua energia. No subir do meu glance, ela exibe o cabelo bem penteado e preto, puxado para trás num carrapito. Na face, um sorriso desafiador e simpático, e mais acima, um nariz arrebitado escorrido de uma testa pequena, e plana, marcada pelos dois pontos negros de um olhar focado, sempre na linha de horizonte exterior à sala. Move-se na vivacidade cheia de energia, e na minha suspeita pela ausência de qualquer dor no corpo. A filha de uns cinco anos de idade, saltita no rasto e no atraso, no agarrar o ritmo rápido da mãe. A mãe encontra-se no instante, junto ao balcão da recepção. Fala alto para a pequena, e a menina roga e pede-lhe agitada, algo, não audível. Passeia-se de um canto ao outro da sala, Olívia de mão-na-cintura, na ocasião de parar e no expressar, um qualquer dizer, sempre na frase iniciada por: -«Parece impossível!» Repetido de forma variada e não monótona... Andam depois na minha direcção mãe e filha, e entram no WC, deixando a porta semi-aberta para a minha arrelia, e tomado por mim como um gesto de não-consideração. Aí constatei a minha proximidade inconveniente com os serviços de higiene de conveniência... Ao fim de algum tempo, Olívia e filha saem deixando a porta aberta. Dirigem-se de novo ao balcão: pela troca de palavras entre a senhora e a recepcionista, torna-se audível e numa linguagem gestual, compreensível a todos na sala e pela troca de olhares de cumplicidade entre os presentes que acabámos de presenciar uma queixa: a folha da limpeza da casa de banho pedida! Não se percebia no entanto, o contexto do assunto ou a razão da queixa. Um outro senhor bem trajado, e bem pesado pelos anos, sentado perto de mim, manifesta-se no agitar do corpo. Um brilho vivo no olhar, no reflexo dos óculos de aros doirados, afina-lhe a fala e a frase solta-se da sua boca: -«Ela (a recepcionista) ficou zangada! A minha resposta foi na «branca»: no pensar na minha dor de dentes. Pensava e teimava em conservar aquela maldita porta do WC ali ao meu lado fechada. No resultado do vai-e-vem, na abertura e fecho da porta, o impossível era bem evidente na forma visível da sanita e os abertos odores que se misturavam com dores. A evidência da queixa, tornou-se clara, pela falta de qualquer coisa ou produto de higiene no WC. Apercebi-me pelos gestos de Olívia na troca de gestos e no aceitar umas folhas-de-papel, do tipo de lenços-de-papel que ficaria resolvido o problema. De novo mãe e filha tomaram a direcção do cúbico e passam por mim. Uma vez aí entradas não fecham a porta, esta agora de novo toda aberta para minha surpresa e arrelia. Demoram um bocado, penso que finalmente a «petiza» fizera o que tinha a fazer, mas não: saem as duas novamente e agora as frases com as palavras bem vincadas: - «Não há papel! não há água para lavar as mãos! mas apenas para a descarga. A torneira de mãos não funciona. Deviam ter preparado tudo isto antes das oito quando abriram.»- Eu na hesitação, e no meio das dores, empurro a porta para a encostar e bloquear a vista do interior que teima em invadir a sala da espera: - «Cadê do papel atrás da porta? E o rolo de papel a a torneira?» Pergunta Olívia a boa voz sonante, fazendo eco pela sala de espera dos doentes. - «O papel foi roubado!!! eu verifiquei-o às 8!»- A recepcionista diz, enquanto se dirige ao WC, -«Não, não, não é que a chame de mentirosa..mas quero ver por mim, ainda hoje antes das oito da manhã passei por aqui e estava tudo em ordem, papel e água...?» As duas dirigem-se para o interior da WC. Quando saem e encontram-se já atrás do balcão chega uma empregada da limpeza num arrastar de andar. Ela já vem avisada e entra em cena por duas vezes, mal- encarada pela queixa ouvida, uma mulher gorda dobrada pelo antecedência do atraso da reforma. Olhar desviado para Olívia, e resmunga para o outro lado, algo não perceptível, perante a fixação desafiante da colega em «incógnito». Arrasta um enorme saco preto, e na correria na sua direcção, Olívia fala-lhe no directo e num tom provocadora pergunta-lhe: -«E a folha de papel escrita e assinada, que não está atrás da porta?»- Sem resposta dada por esta empregada, que se limita a entrar e a sair duas vezes da casa de banho, e no arrastar sempre o saco enorme e preto. -«E a folha de papel que não está atrás da porta?»- Olívia insiste ao repetir a pergunta e que a empregada do hospital não dá uma resposta audível por todos esperada. Na ausência desta nota-se apenas a sua resmunguice murmurada para o lado. A recepcionista auxiliar agora seguida de mais duas, sim mais duas intervenientes no caso: verificam de novo a sala do WC, e na mão, a primeira leva um rolo de papel industrial desses que entram na caixa cilíndrica fixa à parede e que se fecha à chave, à-prova-de-roubo. Na repetição do vai-e-vem a mesma recepcionista, acaba por trazer na mão uma pega de torneira, do género usada por deficientes. O instrumento cuja falta impediu a torneira de ser usada. Enquanto isto desenrola-se o diálogo de Olívia com o público: - «Eu onde trabalho...e não me envergonho nada de o dizer, tenho 16 casas de banho a cuidar. É um trabalho honesto como um qualquer outro!» Olha na minha direcção com aquele olhar de matadora, sedutora, mas desafiadora e prossegue depois do suspiro retido: - «E deixo sempre o papel atrás da porta, assinado!» Por mim, evito de me intrometer no argumento, apenas refiro ao fechar da porta e no obstruir a vista da sanita. Na minha dor de dentes não meço o acto civilizacional do melhoramento do WC, com ou sem papel. Recorda-me a folha azul de linhas, na extinta burocracia e naquelas folhas com um «R» maiúsculo de Registado e de uma ordem de tribunal civil, que aqui poderiam ter um uso mais adequado, seguindo o susto de leitura. A menina faz eco das palavras da mãe. - «Depois de limpar o chão vai para casa. Nas férias também vou acompanhar a minha mãe no trabalho dela.» O médico, personagem incógnita para mim no instante, sai do gabinete e passa pela recepção e fala-me directo: - «Vou até lá fora e depois venho, e se a sala não estiver cheia, atendo-o logo!»- Como é que será que ele descobriu que era eu. O próximo doente a ver? Seria pela pulseira verde ou tira no pulso, posta na recepção das Urgências e «Triagem»? Pensei eu e atrasei-me na resposta. - «Ouve mal?»- A resposta foi um aceno, sei lá? Como se pareceria um médico!...bata branca e veste azul por debaixo? Os trabalhos de construção continuam no corredor, com os pedreiros esburacando pedra e parede, as vibrações chegam-me antes que se faça alguma resposta à pergunta do técnico de saúde. Uma nova agitação no ambiente doloroso, O sossego cortado pelo movimento das pessoas inocentes ao meu mal-estar: Um casal mais perto de mim, uma mãe e filho retardado, já homem, que percorre o espaço frente às fileiras de cadeiras numa hesitação indicisa de assentamento. Este brincara com a construção de brinquedo com uma menina de uns seis anos deixada sozinha sentada numa mesa baixa para crianças. Quando o ambiente se pacifica, surge a visão agitada de um senhor de idade que faz a sua entrada na sala, segurando a boca, e nesta uma compressa premida no sofrimento de uma extracção de dente. Sentou-se duas fileiras longe de mim, naquela cadeira, onde eu antes me sentara. Penso em augúrio, ou premonição do que virá a seguir: E eis, uma nova aparição, a de um aparente casal de brasileiros, ela bem atiradiça, ele talvez um neo-português, pela porta de entrada, e que se dirige ao balcão da recepção. O senhor respeitável de óculos, que no entretanto repete: -«Ela ainda ficou zangada!»- Outra mãe e filha de uns treze anos com o mesmo corpo da progenitora num vestido florido e no parecido, uma criança mongol, agitam-se no pedido de atenção para fazerem um qualquer registo junto ao concorrido balcão. Uma outra menina novinha de uns oito anos de idade com uma cara fora de vulgar, acompanhada pela mãe atenciosa, colocam-se na fila de pé e chamam também, a atenção da recepcionista. Na dor de dentes, penso no meu reconhecido orgulho de ser português. Quem visse o mesmo cenário há 40 anos! Eu português mimado, nascido num hospital particular, o da CUF, e no presente pronto a libertar um pré-molar do meu corpo num hospital público. A simpatia real, na minha convocação para entrar no gabinete operativo: Os dois médicos dentistas, professor e recém-formada, radiam simpatia e camaradagem entre si. No dizer do professor, isto é: -«Vamos extrair! Um gesto de boa vontade, uma de boa acção. Aqui não se tiram dentes.» O interior do consultório ou oficina num brilho higiénico, o esforço nacional na área da saúde aqui reconhecido, nas instalações impecáveis, um brilho nacional, um pretexto ao patriotismo. Uma luz ofuscante, a directa do tecto, a exposição dos aparelhos impecáveis pela frescura que só podem ser apropriados a se meterem na boca, pelo bom gosto, dispostos e bem arrumados sobre a mesa de apoio, junto à cadeira do dentista. Estes inspiram aquela confiança do morto junto do embalsamador. A ganha confiança, a mesma que fez com que eu perguntasse: -«Posso me sentar?»- O gesto do médico não se fez esperar: -«Sente-se e vamos lá!» -«Ouve mal? Percebi que é surdo!» Diz o especialista médico dentista. -«Há bocado quando falei consigo não me respondeu!»- -«Confusão do barulho e a dor de dentes...» Responde o doente, o eu na dor. Iria eu dizer(?): «Estou desnorteado pela dor, pelo barulho, pelo cenário, quero me ir embora!!! não sei, não vejo pela dor a diferença de indumentária entre médico, enfermeira, auxiliar. Se alguma coisa a sua aparece mais desleixada, sem goma, e mais suja e além disso o senhor doutor fala mais despropositado no adereço? Aonde é me meti eu? Em que País vivo o que é isto?» Pergunto-me e continuo para ele: -«Não há alternativa doutor? Tem mesmo que sair? Pois eu bem assim suspeitava! -«Está partido pela coroa e rachado para baixo! A doutora dê-me aqui uma mãozinha preciso da sua ajuda»- Dito naquele piscar de olho, para não ser perceptível ao doente. -«Doutor? Ajuda?»- Olha ela para o mestre e percebe a mensagem, que será ela a fazer a tarefa ingrata: a de mais um dente por dente na contagem a somar na experiência profissional e no acrescentar.»- E de repente é ela que está debruçada no meu colo, com um ligeiro aroma de mulher, que na sensualidade feminina me observa pela hórrida parte da boca doente... -«Não mexe, o dente não mexe, mas depois do torcedor irá lá.» Na primeira tentativa: berro e resmungo mudo ao torniquete e ela reage: -«Não se mexa!!! Tenho os instrumentos na mão que o podem ferir mais se mexer! Entende.?» -«A faca e o queijo na mão»- Respondo eu entre o sussurro e o murmúrio. Falei: -«...e eu reajo à dor...desculpe mas doeu...à dor eu reajo, dói-me e eu reajo...»- E eu não disse mais, como na esperança que a Doutora não fosse lenta no retirar do aparelho. Mais um jorrar do saboroso liquido de anestesia directo na perfuração da gengiva. Uma décima de segundo na espera deste reagir na dormência ou anestesia do nervo. Nervos à flor da pele no agarrar-me à cadeira, e de novo a mineira procura na rocha o «nugget» de quartzo na rocha e habilmente aperta o instrumento contra o partido esmalte e osso, e prepara-o para o sacar. -«Já está, quase!» e as mãos de fada fazem o trabalho... -«já está...já foi!»- Penso na sua fala e o comparável vem-me à cabeça: «Uma rapidinha», daquelas demasiadas rápidas entre o cinema mudo e o sonoro. De boca aberta no meu espanto, faço o gesto de acordar ou melhor concordar...nesse acordo tardio na vida. Foi-se parte do meu corpo, prova do ADN, cresceu comigo, acompanhou-me naquelas dentadinhas de raiva e mais tarde de amor, na marcação da pele, no vestígio da dentada num pão e as marcas dos dentes no bife duro. Traiu-me, e na: pela-dor-se-foi. O dia virá no futuro de ficção, a alcançar o milagre, em que se faça por um pingo de um novo tecido ósseo no local do maxilar, e o restauro será feito ou talvez a injecção de uma semente para o novo dente. -«Vai precisar de mudar de dieta: só ingerir iogurtes, coisas moles durante...»- Uma linguagem da médica recém-formada, que senti: ser a mais plástica de todas, directa e repetida de utente a utente. -«Que graça é a primeira vez que uma menina de cara bonita me arranca um dente e não o coração.» «Parvamente» escapou-me entre dentes e de boca semi-aberta, tipo silvo, segundo receei. A correcção do médico e professor, não se fez esperar e rápido diz em tom de emenda: -«Rasga o coração...sim porque melhor se rasga e não se extrai.»- Olhei para ele e senti o vazio na minha boca e do dente de fora, sorri. Não esqueci de olhar para o dente e a sua raiz comprida de pré-molar. Um amigo de longa data que fazia parte de mim e agora está fora do lugar e morre solto do meu corpo. O dente que ficou na mesa dos aparelhos: -«Quer o levar para casa?»- Perguntou o médico em tom de misericórdia. A resposta não se fez esperar: «Não! Obrigado! Pensei e disse para mim: «Dê-lhe um enterro decente! Goodbye my friend! You have been always a good part of me, as you know! Time to depart! I will join you later, take care!» Se eu não estivesse a sofrer de uma hemorragia e com esta dor dormente dava-lhe uma resposta mais acutilante. -«Acabámos?»- -«Nada de analgésicos? Anti-inflamatórios, de anti-bióticos?» -«Não, não precisa de tomar nada!»- Avisa o médico, e: -«O melhor é gelo!!!»- Pensei no frio do copo de whisky com gelo, mas calei-me não me quis incriminar. -«Sim pode se ir embora.»- Pensei, não me posso esquecer de agradecer: -«Obrigado!» E lá fui de novo arrastando-me «de asa quebrada», pela saída mais próxima e inadvertidamente a mais longe para a rua, pelos labirintos do exterior do hospital. Este que um dia será demolido, e já ameaçado, pela falta de utentes na baixa demográfica e da inversão da crescente cárie orçamental do presente. Saio com o pensamento solto: -«Deve haver maneiras mais fáceis de se viver.»- Digo alto e só para mim. (14) «O Peregrino Perdido de Santiago de Compostela» O homem da tesoura de alfaiate e de cajado comprido passeia-se frente ao café, ali na Avenida da Igreja perto da Avenida de Roma em Lisboa. Apenas alguns dos clientes da esplanada olham-no impávidos, os outros desistiram de olhar à personagem que pudesse ter saído de um hospício. Habituaram-se a ver este tipo de figuras estranhas soltas na via pública a seguir à revolução de 1974, ali para as vizinhanças do Júlio de Matos, a Instituição que ainda hoje lida com os casos clínicos de desespero mental. A proximidade deste hospício, a grande Instituição Central para doentes, no seguir da política vigente da altura: a de deixar sair os utentes, deixá-los misturarem-se com o público das ruas, como se tivesse algo a ver com a liberdade dos tempos que corriam, essa a de permitir que um aparente louco vestido como um peregrino «a caminho» para Santiago de Compostela se tivesse perdido, ficando num raio de cem metros do sua hospedaria. Trajado todo de preto numa túnica e capote, com o cajado na mão esquerda, e na sua direita uma enorme tesoura de alfaiate bem aberta, e na cabeça um chapéu de abas largas enterrado até à nuca. Num andar ameaçador passeia-se na Avenida da Igreja, frente à multidão no passeio, frente às mesas no céu aberto da esplanada com o público de clientes sentados, onde eu próprio me encontro acompanhado. Roga pragas a este e àquele, às figuras imaginárias que assumem uma realidade na sua cabeça: batalhões de soldados inimigos que o perseguem, em sua defesa roga maldições aos ares, e gesticula defendendo-se por gestos agressivos com a tesoura de alfaiate. Ditadores omnipotentes e desaparecidos pela história citados e gritados, generais, coronéis, majores, capitães são todos amaldiçoados. «País imaginário este!» O louco na sua mente, desce depois à aldeia de onde é originário, e na falada pretensa imaginação, vai pelas ruas e ruelas sente-se recebido como um herói. Fala para este e aquele em frases incompreensíveis. Voltara recentemente do Ultramar, dessa trama tramada de uma guerra de números, onde sobrevivera a bombardeamentos de obuses. Estes que num campo militar no continente seriam inofensivos pela imaginação, mas pela incúria pensada levada aos trópicos, gravaram-se no sofrimento humano sem limites tendo por cenário a vegetação luxuriante. Esse «o fado», essa inércia, na excepção da voz, que actua no eco da tarde, e que esquece o destino, esse que o levou a cantar a imaginação. A voz das explosões foi má conselheira para este nosso compatriota...Sofreu e aterrorizado sobreviveu, enquanto, olhou de esguelha e testemunhou os companheiros a serem ceifados pela fragmentação das explosões dos óbuses, e assim apregoa. O louco corria veloz no dobrar de esquinas e no vai-e-vem, como a figura de um «romeiro» apressado. Na mão direita empunha a tesoura aberta pronta a cortar pele ou tecido. Lembra a figura teatral do soldado retornado da guerra da batalha de Alcácer Quibir, de Frei Luís de Sousa no século XVI. Pareceu a António ouvi-lo responder às perguntas: -«O que fazes? Quem és tu? E por último de onde vens?»- As respostas que se vieram vir: -«Nada,já fiz! Matei, esfolei! Venho do outro lado do mar! Sou «Ninguém»!»- Assim imaginou António. Limita-se a grunhir, a arfar, a resmungar e a lançar pragas mudas aos perseguidores imaginados, abana constantemente o cajado na mão esquerda e na direita apropriadamente a «tesoura de alfaiate» para um rasgar limpo e bem afinado pelo jeito. Tal um chefe de orquestra orqueja um furioso imaginário ritmo com os dois braços e os dois instrumentos, sempre de cabeça erguida no seu prumo, na paragem e no intervalo das correrias. A personagem de negro carvão estancada nesse instante no passeio das brancas pedras da calçada, destaca-se pelo preto no branco, e no entanto são poucos os olhares curiosos que se voltam na sua direcção. O sentimento que prevalece, da parte dos clientes da esplanada e do público será: -«Não tenho nada com isso...se ele cortar alguém não serei eu. Melhor ignorar para não me chatear.»- E assim a mímica faz-se ameaçadora pelo lutador contra os moinhos de vento, tal uma boa peça num teatro aberto de uma feira num Domingo. António olha em volta e assiste a uns tantos mais doentes mentais de «bibes», a pedirem esmolas aos carros que param nos semáforos ali mesmo no oposto da avenida. O beber a «bica» em paz, numa tarde de Verão foi estragada para alguns dos clientes pela presença destas personagens estranhas à rotina. Conclui: isto não é um caso isolado mas é endémico nesta comunidade do: «faz-de-conta que não vês»... Uma sociedade que se está «nas-tintas», que larga e espalha os loucos nas redondezas do hospício, semeia pequenas tempestades, turbilhões, tornados que rodopiam e retornam a si. No amanhã das gerações, mais dos seus membros farão parte dessa mesma rotina. Na apatia serão punidos mais tarde pelo mesmo mal, que os faz hoje voltarem a cabeça. António acabara de ver recentemente o filme de Milos Foreman, este baseado no livro de Ken Kesey, que eu lera: «Voando Sobre Um Ninho De Cucos». Recordou também aquela conferência assistida nos anos sessenta na Embaixada de França sobre Psico-drama, com a palestra e os filmes projectados sobre o actuar dos papéis dos doentes pelas figuras imaginárias, que eles próprios pretendiam ser nas suas loucuras e levados nas suas representações aos espaços públicos, como em carruagens de Metro de Nova York e não só. De um modo persistente das loucuras no geral, lembra-se da morte de Marat-Sade, a peça de teatro representada originalmente pelos loucos do Asílio de Clareton sob a direcção do Marquês de Sade e em 1963 encenada por Peter Weis que deu origem ao filme de Peter Brook e Adrian Mitchell, 1967, com o excelente elenco pela Royal Shakespeare Company. A «A Louca de Chaillot» de Bryan Forbes no final dos anos sessenta representada por Katherine Hepburn no papel de Countess Amelia, veio-lhee no conturbado da mente também. A cena que se apresentava no presente perante os seus olhos ultrapassava e era superior a tudo que conhecera num palco ou num ecrã pelo «sabor» bem real e português. Confessou-se a si que temera nesse instante pela sua companheira: pelo choque e pela ameaça de uma tesoura de alfaiate. Pensou em recorrer às forças superiores de autoridade. Mas não as vira por perto e reflectiu: quem seria mais «são», nesta sanidade ilusória? A agressividade seria aparente e a personagem teatral? Talvez, um pronúncio daquilo que estava para vir. A sua amiga não era de modo sensível e esboçou-lhe um sorriso, quando a olhou no receio. «O louco sou eu», pensou, pela passividade. O cenário do louco tal como aparecera e mais o dos seus colegas de desvairos, acabou por desaparecer, sem que a sua saída fosse marcada com alguma vénia. Simplesmente desvaneceu-se, e depois disseram-lhe que chegara a hora do recolhimento no hospício, a hora da última refeição do dia. O alívio foi geral na multidão, marcada por uma nova vivacidade, e agitada na conversa geral. A vida social continuou para os lados daquelas bandas dentro e fora do hospício. Aconteceu assim na realidade, o que tornou este conto mais fidedigno na esquecida ficção de uma caminhada para Santiago do Cacém ou será Compostela? (15) «O Quebra-Cabeças» Da minha varanda vejo uma mulher de negro que jaz deitada no asfalto do caminho rodeada por pessoas frente à porta do restaurante vizinho,. Esta já de certa idade, sentira-se mal dentro do restaurante, saíra e desmaiara frente à porta. Uma filha que a atende e a apoia, um homem que assiste especado e uma outra rapariga por perto...o empregado que vem ver o estado dela, à porta do restaurante e entrega-lhe na mão um «tapware»: o resto do almoço familiar. Ela jaz a meio corpo, vestida toda de preto, tronco e cabeça aparada por uma outra mulher. Move as mãos em resposta à filha na pergunta: -«Está-se a sentir melhor? Já passou?»- A cena seguinte como descrita, ocorre passados uns minutos depois, e reaparece noutra forma e cenário: o mesmo homem, mas na troca de outras personagens e um pouco mais distante deste local, no entanto por debaixo do balcão da minha varanda. Uma violência doméstica ouve-se pela imposição do ruído de ofensas mútuas, marido e mulher de «Etnia Cigana» frente ao café, num lugar do jardim público. Os dois bem enérgicos: o mesmo homem, mas uma diferente mulher de há pouco. Uma pedra grande na mão do marido, reconhecido como tal. O olhar entre ódio e amor recalcado na resposta muda à palavra arremessada pela mulher : -«Trapalhão»!!!»- Ela refugiara-se no café e rodeada pela clientela habitual, vocifera as palavras continuamente. O marido de bigode farto e cabelo negro, uma idade passada os quarenta anos baila-lhe um olhar fixo e agudo, o moreno cortado por uma camisa garrida de riscado branco e vermelho sobre as ancas, dirige-se diligentemente, até à relva. Deposita aí a pedra maneirinha que carregava, desarmando a agressividade. Ela prossegue na confissão: -«Nunca mais, nunca mais me bates, não vou par casa contigo.»- O marido insiste na sua presença, dizendo-lhe: -«Estás doida mulher!...Vou telefonar às tuas filhas e logo vês!»- dizendo-lhe a ela à companheira que insiste em deixar de o ser. Num gesto ameaçador liga no telemóvel e de novo repete: -«Vais ver!...Venham cá buscar a mãe, ela esta possessa e a fazer uma cena...»- Na resposta dela: -«Bates-me e eu chamo a polícia e vais preso. Já não vou para casa seu: «trapalhão, trapaaallhhhãooo. Já não vou para casa...»- O homem insiste em entrar no café, e fazem-lhe frente a filha do dono do restaurante, que o enxota, empurra-o e persegue-o. A rapariga com uns vinte e dois anos distancia-o uns metros. Valente da moça, mais pequena que o homem, e sem medo, atira-se a ele na agressividade, de corpo e alma. A «Moça»: uma jovem bonita de olhos negros e pele clara, um corpo atlético, «um olhar grego clássico», contrafeito num penteado preto puxado para trás num rabo de cavalo, numas jeans, numa «t- shirt» preta bem justa, num sorriso no normal bem vivo, que rodeia a trincadela constante de uma pastilha elástica. Poderia ser uma filha de um «Al Pacino», mas não no «felizmente»...O pai da «moça», o proprietário do café, vai atrás em defesa da filha, até que confronta o «agressor» face-a-face, e já outro homem se interpõe pelo meio, arbitrando as ameaças mútuas, sem que estas sejam concretizadas. O «trapalhão» insiste. Tem pela frente o pai da «moça», homem forte no excesso de peso, gesticula a ameaça de uma «chapada» de braço voltado e diz-lhe: -«Aqui não, no meu café não.»- Vejo e assisto à cena do meu 1º andar e que passa por debaixo, e os pormenores não visíveis, são audíveis: -«Trapalhão! não te quero...vai atrapalhar para outro lado.»- Um olhar desesperado e surpreendido do companheiro, braços para baixo e continua a segurar o «tapware»...na mão esquerda. Aquele olhar desolador e na surpresa de não acreditar no que se passa: o ser enxovalhado em público, perante testemunhas, por alguém que partilha a cama consigo no passado bem presente. Na sua postura no direito, ele insiste e o modo como olha para a mulher, com todas as suas defesas e agressividade no «baixo», só lhe falta pedir desculpa pela insistência. Ela continua impávida e insistente: -«Trapalhão...!!!»- Ela ofende-o no contínuo ao sentir-se protegida finalmente, naquele sabor pela vingança fria e gostosa ser-lhe agora servida. Vai disparando dizeres, ele recua, e afasta-se para de novo voltar. Uns três ou quatro clientes com a «moça» no meio, fazem-lhe frente. A ira é agora direccionada e focada ao pequeno grupo que limitam o homem no movimento pelos braços. A mulher argumenta: -«Estás tu com essa raiva, eles não têm nada com isto, só me estão a defender, seu trapalhão...já não vou hoje para casa, não vou mais, nunca mais me bates!!!». A cena constante insiste na vida a dois e agora multiplicada por estranhos, nas ofensas e ameaças. O homem silencioso, no desacreditar-se no que se lhe revela em público. Cala-se, de olhar magoado e enublado, mantém a postura direita e insistente, permanece no lugar, não move a cabeça e no fixo, olha a companheira. A agressividade latente cai no paradoxo: entre os gritos da mulher do «trapalhão, e no olhar não acredita e não deixa ir, ou estar, a mulher no presente. Ele persiste e a troca gestual com os gritos insistentes dela, mantém-se num «não-confronto», aparentemente limitado pelos proprietário, moça e clientes. Vivas são as vozes, no esgotamento de emoções a dois, com um eco pontual dos assistentes. No vai-e-vem dos passos do homem, que acaba por recuar e abandonar o lugar de vez, largando pragas àquela que bem gosta à sua maneira, mas no entanto, não a protege no íntimo. Vai-se embora, levando consigo o eco das ofensas da sua companheira, agora convertida num inimigo declarado, persistente e público, e no dizer: -«Trapalhão»- E de novo repetido, acrescentado desta vez com: -«Hoje dormes sozinho! trapalhão»- Passados uns minutos do sua saída, chegam ao local dois homens de meia idade, ambos pelo moreno, bem vestidos acima da média, e indagam junto do dono do café o que se passara. Aparentam ser árbitros oficiais da comunidade e oferecem-se para proteger e levar a senhora, que acaba por os acompanhar. Ela vai altiva, vestida de preto da cabeça aos pés, um cabelo aloirado apanhado atrás numa crina, um corpo ligeiro no gordo, move-se desafiadora de ancas direitas: uma mãe numa saia comprida e uma camisa ambas pretas, de acordo com a falta recente pela morte, e no respeito de alguém querido ido, que não o seu marido. (16) «O Fazedor» À beira da passagem de peões ali para os lados do Príncipe Real, naquele primeiro passo no atravessar da passagem de peões, Francis acompanhado por este seu amigo Manuel, dirigem-se para um restaurante do outro lado da rua. A conversa fora lançada sobre os rendimentos de como fazer dinheiro, na analogia ou metáfora, ali mesmo na travessa, e a expressão e ideia surge a Francis e solta saiu: -«Imagina o que é fazer dinheiro, gerar um expediente? Tu aqui nesta passagem presente no cenário fixo e imutável, com os carros que passam, como o fazes? Sim como é que tiras proveito do trânsito, tu parado aqui, como é que consegues tirar proveito financeiro desta tua situação? A vida e a sociedade são representadas pelo fluxo dessa linha continua de carros de «alta gama», que correm pela passadeira antes de pararem e nos deixarem a nós os dois transeuntes atravessar. A impossibilidade de fazer parar o fluxo da vida rápida, que corre à tua frente, e tu como mero peão, o que tu poderás vender? Preso na passagem de peões olhaste para os lados e fizeste parar o carro e agora?»-. Uma metáfora lançada ali. -«Dirigiste-te com um pano na mão para lavar os vidros!»- responde-me ele. -«Em dez carros há de haver um que quer que os vidros sejam limpos. Trabalho é trabalho.»- -«Mas és graduado, tens um curso superior...», Poderia ser o argumento, pensa Francis e assim devagueia para si. Uma pequena história que tanto se aplica no pormenor como no geral, na improvisação. «Raios porque é que um argumento se torna numa solução simplificada pela «fala», mas que na vida real não será assim de forma resumida e óbvia. A tal realidade que não existe, mas sim a sua interpretação pela percepção individual e colectiva dessa realidade, algo que Aaron Beck diria.» Ensinam-na nas escolas, deturpam os significados e amarram-na a conceitos éticos e sociais, trabalham do tosco o individuo para este ser mais um «poste» nessa linha de transporte de um fio eléctrico. -«Não vejo carros de alta cilindra atravessarem o riscado da paciência e sujeitarem-se que os vidros sejam riscados numa limpeza rápida e pouco eficiente feita pelo peão insistente. Já foi coisa comum há alguns anos atrás. Esses limpadores como apareceram sumiram-se. Os motoristas não os suportaram e para mais no dar a esmola se recusaram e esvaziaram por todo a profissão.»- Considerei e disse a este meu amigo: que tal empreendimento não resultara e o problema pôs-se de novo: -«Como dinamizar? tal na vida nesse fluxo que corre sem intervalos, o de dinamizar um negócio? Tu aí especado! Essa é a dificuldade tal como na água que corre debaixo de uma ponte, como tirar partido? Construir um moinho de água? Pescar o peixe que nada pela corrente abaixo? Só que na modernidade a corrente são pessoas e a ponte a margem da estrada e passagem de peões. Como rentabilizar na vida um trabalho, numa situação difícil e quase impossível, num dado momento e sem ferramentas?»- A noite escorrega pelo dia já inclinado sobre o jardim do Príncipe Real. O problema posto e não esquecido adormece a mente dos dois, na dificuldade de uma resposta concreta. A fome aguça-se e no encontro do restaurante, sentam-se no exterior naquela mesa que além de outra, forma a esplanada aberta pelo estreito passeio. No prato uma posta de salmão grelhado, na aparência pescado por debaixo da ponte, mais uma garrafa de vinho branco no plano inclinado, tal como uma miniatura da Torre de Pisa nesse tampo da mesa sobre a descida da calçada à portuguesa. O jantar entre estes dois amigos, corre alegre e fluido pela conversa, sempre frente e misturado com a passagem de peões, que os olham na curiosidade, no obstáculo do passeio. Francis reflecte por fim: «Jantou-se bem, metade de Lisboa passou por nós, e o problema do trabalho dorme no canto da cabeça.» (17) «A Maior Prova De Perseverânça» António olha pela janela da sala de um primeiro andar que dá para um jardim público, e vê através do vidro transparente e limpo a maior prova de perseverânça, face às más condições de vida. Essa mesma prova dada por um velho cão preto que coxeia nas patas traseiras e que tem o hábito de aparecer nestas primeiras horas de calor, e em seguida reaparecer antes do lusco-fusco. Vem apreciar o calor do asfalto, nesse riscado da passagem de peões, por breves momentos. Arrasta-se para aí se deitar naquela posição para si confortável, barriga de lado e pernas esticadas. Uns minutos depois, num novo arrastar dirige-se para o centro do jardim público, por um outro caminho bem perto, e que percorre a aridez dos carreiros, rodeados pela verdura da relva e dos arbustros de alfazema. Vira-o há anos, no passado longíquo no mesmo parque ainda jovem cachorro percorrer o caminho cheio de energia, solto pelo o rapaz que o passeava. Este chutava a bola repetidamente para o cão ir buscá-la e traze-la a si seu dono. O cão divertia-se com isto, e pedia sempre mais, enquanto para o rapaz o jogo com o animal, tornara-se num «frete», ou «canseira», mas ele o dono sabia que era o único modo de distrair o animal dedicado. A analogia apareceu-lhe como a relação, entre o futebol e o Estado. Chute-se a bola, que o povinho vai, «a ver» repetidamente. O mesmo povinho capaz de se combater entre si, dentro desportivamente, e violentamente fora do estádio, para que no fim grite entre os dentes: -«O Porto venceu, mas o Benfica ganhou moralmente.»- O rapaz que se tornou num homem que presenciou a vida escorrer-lhe, parece ter desistido dos passeios pela ausência, e no presente, o cão envelhecido pelo peso da idade, arrasta-se e coxeia sózinho. O animal lambe a poça de água entre o buraco da calçada ornamentada à portuguesa, para depois se deitar em pleno céu aberto, e coçar-se preguiçosamente, ao tentar ver-se livre desses parasitas reais, que lhe sugam o sangue, pela pele bem preta, esta que transparece pelo coçado e pelado pêlo negro. Um olhar terno deita a quem passa e a quem olha curioso. O pobre estado do animal ganha aqui o seu direito de sobreviver, o que noutro país dito civilizado, já o teriam recolhido para um abate certo, num premeditado golpe de misericórdia. Feliz no seu presente estado, desafia tudo e todos para se conservar vivo, ama aquele seu momento de vida, exposto à aridez dos sentimentos humanos e em derradeiro desafio, morde entre pedras brancas aquela pequena porção de erva verde, crescida à rebeldia do jardineiro das vidas. -«Sorte a minha!»- disse para si António: -«como testemunha, ensinas-me muito, tu velho cão preto.»- (18)«Nobre ou Nobel» O Electricista Da Esperança, o Egas... «O Doutor Vai Sem-bata Dr. Moniz!» A precisão do talhante em exibição, no vai-e-vem armado de uma luva de rede de aço inox, «chop, chop» na tábua, corta aquelas costeletas, tal «chop-chop» à inglesa. Na «arte» elaborada: Um longo pedaço de lombo encarnado sem sangue encostado aos ossos e zás lá vai a parte do cadávre do animal cortada aos bocadinhos: de costelas vira costeletas. O animal no todo muda de terminologia: de touro, ou de boi, passa a bovino, a vaca... Nós Homens, seres carnívoros sem expressão cândida, no olhar de lado o animal, que no entanto marra a direito. O talhante observado deixa cair dos ares com o seu peso a pesada faca afiada no momento, e no encontro com a tábua branca de noiva, divide num corte limpo e na precisão, define a espessura da fatia da costeleta. A arte a de «talhante» do Doutor diplomado sem-bata, é outra, mas deveras precisa no conciso e levada ao extremo da perícia naquele outro tipo de talho, ali para a Rua da Esperança. Próximo do Poço dos Negros, onde os mouros se foram acumulando na profundidade do poço, pela ocasião histórica daquela perseguição sem quartel, naquela data esquecida pela conveniência da História Lusa. Segundo a Florbela Espanca no seu poema séculos depois, «dança-se bem e muito para esses lados», nesse bairro. Voltando à Rua da Esperança, onde se encontravam as instalações operatórias do Doutor: Essa rua de nome sem apelido e reminiscente de um fado corrido, como há poucas ruas de Lisboa, que não se chamem pelo nome do Santo, ou na ida agressividade do morto, «catalogado» em nome de rua. A personagem do «O Electricista da Esperança», esse que foi o primeiro dos cientistas portugueses, a receber o Prémio, mas não o pode evitar: em conjunto com Walter Rudolf Hess, o Nobel de Fisiologia ou Medecina em 1949. O seu consultório situava-se nesta rua, e aí procedia à tortura de limpar pelo fio eléctrico males e dores de cabeça, no churriscar ligeiro, o interior do miolo, ia à razão «do ser» a epiléticas e a histéricas, no feminino de preferência; mas também no masculino frequentemente. Uma voltagem excessiva e na volta à cabeça, o doente, mordia-se aceso. Duvido que o doutor aplicasse tais choques a seguir a um bom almoço, não iria o cheiro do chamuscado, revolver-lhe o interior da barriga. O homem seria eléctrico, um enérgico professor escritor e divulgador na faculdade de medecina, com provas dadas e de penteado empastado de «risco ao lado» evitando o cabelo no ar pela electricidade. Praticava a ignorância, e no entanto conhecia por experiência da subtracção das partes e sabia ao certo as zonas do cérebro que tornariam o doente mais pacífico, mais próximo do reino vegetal. Nas suas mãos e sob a sua instrução na cumplicidade de assistentes, aprofundava saberes, sabores e odores cerebrais. Doentes acordavam sem «o dom» de distinguir um chocolate de um figo, ou o odor entre uma camisa lavada e um par de meias usadas dias a fio. A técnica de operação desenvolvida pela ignorância adquirida incidia pelo instrumento de corte e no esburacar. Levada à perfeição pelo olho removido no temporário, no olhar solto do doente. Este ao acordar da miragem sentindo a falta do cérebro, não rara vezes, esquecia-se de quem era. No final da operação com o olho de novo colocado, poderia observar o «restelo» do seu próprio cérebro fora do sítio. Uma operação «maravilha», que corria sempre bem, sendo a dor sempre de outro. O sonho realizado de qualquer um para o «fare niente», sem consciência, neste novo estado. O futuro pré-destinado nas nações futuras, uma operação aplicável ao trabalhador rural e ao citadino de um país totalitário, no prenúncio de tempos que hão-de vir. Remoção de partes pela intrusão da informação inapropriada, esse precioso ponto de revolta, não esquecendo mais o da rebeldia e da individualidade. A alternativa será de semear tais tipos de indivíduos, apará-los no crescimento. Para quê tanto trabalho? O mais simples e económico será deixar a raça humana por si, lá diria qualquer Deus ou Alígenea. O resultado fala por si. Será que será necessário ser mais conciso na parte a remover? O agradecimento pela comunidade de neurologistas ao operador de re-nome, pela ousadia e coragem de abrir o miolo, como uma casca de noz para depois o colar, soldar ou cozer, nas primeiras operações, para depois proceder pelo canal visual. O cabelo tapa mais um bocadinho a cicatriz ao redor, ou ser atribuída à marca do chapéu imaginário. Na história moderna da intelectualidade europeia: o poeta Apolinaire escapou à explosão de um óbus na primeira grande guerra, mas teve que usar durante anos um cinto à cabeça, não fosse a tampa soltar fora pela pressão. Na história antiga dos «westerns» ou do «Farwest», o índio sioux cuidadoso removia parte do escalpe: a porta de saída de emergência para os céus, da alma do guerreiro morto em combate. Um Prémio atribuído pela ignorância, só poderia ter origem numa matéria explosiva, tal numa mistura entre nitroglicerina e pólvora e ao longo dos tempos, formalizada na cerimónia. Sempre a necessidade da sociedade de ritualizar algo mesquinho e redentor da explosiva verdade. Há na verdade quem tenha inventado a pólvora, além dos chineses. A mistura aparentemente não resultou muito bem, embora tenham lançado foguetes antes da festa. Há quem escreva no seu cartão de visita: premiado pelo prémio Nobel, e assinale a «Vintage dos anos», tal como, de «oitenta». Contabilize o número de mortes pelo poder da explosão do «nobre dinamite», ao longo dos dois últimos séculos, e estaremos mais perto da verdade, do historial do progresso dos Homens. A prova que a evolução humana não é um facto adquirido pela biologia, mas sim no ganho do vencedor de prémios. (19) «A Ruiva Aloirada» Um conto de outono O luscofusco do anoitecer insiste em quedar o dia sombrio e frio de Outono iludindo-se no escuro da noite na cidade, e eu desço a avenida no pisar das folhas caídas sobre o frio das pedras da calçada, ando rápido junto ao abismo branco dos prédios altos. Algo me interrompe na correria para a estação de comboios na persiguição 'daquela' promessa de um jantar em casa de amigos: oiço naquele instante uma chamada vindo de uma voz feita calma na hesitação. Olho e reparo que na minha frente aparecida do nada, está uma mulher de olhar desesperada, olhos azuis numa face de pele esbranquiçada orlada de cabelo curto arruivado e loiro. Uma silhueta magra cravada de um sorriso triste que entre lábios deixa brilhar os dentes partidos, e vem vestida de saia e camisa de malha justos ao corpo. Projecta simpatia na aproximação e justifica-se na minha surpresa: Tenho passado mal! faço pela vida, não tem nada que me possa dar? A pergunta seguida à minha surpresa fora lançada. Depois de uma observação mais demorada em que lhe atribuo uma idade de uns quarenta anos, e no tempo de contemplar de novo mais uma vez a minha parca contabilidade para o final do dia, segue-se a minha resposta: Tem aí um euro? Tenho pouco e faz-me diferença neste momento, mas dê-me um euro em troco desta moeda de dois euros. A percepção genuína da sua parte de quem está à sua frente está bem intecionado mas algo também limitado. Tenho! Parece que sim! Procura nos bolsos e ri-se ao dizer num tom arrastado natural e meigo ao extender a mão e receber a moeda em troca e no olhá-la: Que bom! Tenho uma moeda grande! Nesta minha situação o que mais me aflige: é esta minha higiene, preciso de um duche, preciso de me lavar. Nunca pensei chegar a este estado. E implora: Leve-me a sua casa por favor, faço-lhe um jantar! Repete: - Faço-lhe um jantar! Hesito, e olho para a minha própria vida. Apercebo-me na minha limitação da pressa das horas e em seguida dos destinos dos dois. Rói-me a consciencia do meu âmago, mas apercebo-me da minha limitação e receios de bom-samaritano, da ideia feita das condições do meu próprio refúgio. Respondo-lhe: Não posso! não tenho condições e vou agora para um jantar em casa de amigos. Não tem sítio onde ficar, onde dormir? Não, mas uma amiga deixa-me dormir na sua "tenda". E organições de apoio? Já recorreu delas? Essas não fazem nada, deixam-me pendurada... Percebo! Mas o que lhe aconteceu? "A branquinha" foi o meu mal! Os meus pais não querem saber de mim, mas enviam-me dinheiro por vezes. Um silêncio e a pausa quebrada por mim, em tom de desculpa: Isto comigo também não anda lá muito bem...Na próxima...tento ajudá-la mais... Acredito. Diz ela. Adeus e que as coisas melhorem para si. Adeus e obrigada, e também tudo o melhor para si... E os caminhos dos dois tornam a distanciar-se. Passado uma semana depois de muitas reviravoltas do seu estômago, de novo corre pelo mesmo trilho na procura de uma voz desesperada que não encontra. Um atrazo que se passeia na rua mais atento. -«A vida falha-me», salta a frase sózinho. (20) «A Poetisa» Sábado à noite pelas vinte e uma horas estou frente a uma livraria que fecha na falência pouco romântica, nos tempos que correm, na espera de amigos solidários com a justa causa de negação. A resistência ao fecho é levada a cabo pelos trabalhadores de anos, e expressa pela leitura de um manifesto. A áspera e crua realidade bate-nos a todos na face. A penhora pelas finanças do imóvel feito móvel que muda de mãos. Uma derrota da cultura, e uma mais valia ganha para o supermercado. Este destinado a transaccionar livros para uma educação obrigatória juntamente com as cebolas, frutas, alhos e conservas...Fahrenheit 451 a temperatura da combustão do papel, mas no zero: a temperatura da frieza daquele que não edita mas que lê o outro plebiscito e que a todos é dirigido sob o «Diário da República», na alteração de leis de trabalho da relação entre empregados e empregadores. Emergem pela «propositada macedónia» os grupos maiores e que engordam neste jogo de «queres ler»? Numa resposta directa: -«Pagas e pagas, preto no branco! Esquece as facilidades do passado, esse a ser esquecido e agora vai ler para outro lado.» Grandes grupos que apostam nas personalidades a serem sumidas, esses de uma revista «Hola» que escrevem no improviso o previsto. Os Jesuítas sabiam-no bem: que para lançar sementes do saber, cultivavam desde pequenos, sim às crianças, em objectivos directos, mas num olhar para amplos cenários construídos, e «num abrir e fechar de olhos» do tempo de uma geração surpreendiam a todos pela prova. «Um Sermão Aos Peixes», um exemplo, que das águas quietas se liberta laureado pela escrita do Padre António Vieira, vem-me à memória. Uma mulher jovem de espírito combativo surge a meu lado, e na minha surpresa tenta passar-me a mensagem dos seus poemas, frente a uma porta de uma editora que se fecha a todos. Esta porta de abertura de edição sempre barrada aos livros de poesia desta autora. A recusa de sempre, dos possíveis editores Lisboetas, que pela selecção e gosto, resumidos num presumido bom português, e que no caso recusaram vezes sem conta o versado texto. A livraria que agora se fecha no definitivo para uma outra porta se abrir, na breve exposição à corrente económica e para enclausurar um espaço de cantaria vazio, a ser ocupado pela venda de comes e bebes rápidos mas de digestão lenta. A rapariga fala-me ténue, a artífice das rimadas palavras, de uns trinta anos diz-me que encontrou de novo o Norte no vai-e-vem do escrever depois de um turbilhão rodopiado de vida. Apresenta-me ao companheiro, um outro lutador, mas neste seu caso mais guerreiro, solidário para com ela e no acompanhamento dedicado. A poetisa mostra-me as escritas de poemas, que no meio da gente e da «barafunda» eu não consigo ler sem óculos. O título do livro por ela mencionado no zumbido da multidão soa-me ao ouvido como: «Dias Que Se Passam Pela Noites».A representação de «um final» neste fecho da livraria, pela imposição dos tempos, um neo-liberalismo iliterato mais dedicado à lavagem e brancura do vil papel, pouco letrado mas no numerado entre a confusão dos juros do capital. Um Bairro Chique a mudar de «bolsa» e de mãos. O Martim Moniz que sobe lento o Chiado nesse lance-passo. Uma câmara municipal e «capital» a perder Lisboa e a perder-se no horizonte entre as sete colinas. No restôlho da cidade ficam os sinais de trânsito sem peões nacionais, estes que num jogo de xadrez são os primeiros a se perderem. O jogo da vida chegou à Rainha, «A Capital», e chegará finalmente ao Rei esse representado pela identidade viva deste País, porque há sempre adversários à altura, quando se olha para baixo e nada se faz. Um fecho ou um acabar na qualidade desses «passeios» no Chiado, um encerramento de portas que grita perante a invasão sem quartel dos turistas. Parasitários da beleza da cidade, perdem o dinheiro antes de chegarem nos agentes turísticos e nas viagens aéreas pagas pela digitalização nas origens. Pouco do material sonante chega a nós habitantes da sofrida urbe. Na dieta comem e pagam em miúdos, deturpam a economia e gostos locais. Torcem o nariz aos manjares tradicionais, e trazem em atrelado pelos portais abertos ou nas suas mochilas: menus e empregados a baixo-custo, estes que de avental não se exprimem na língua de Camões, nem na de Moliére, mas na actuais línguas e desejos de Cameron ou de Merkel, pelo estóico e sovinice do vocabulário mal adquirido. Oriundos do longínquo Paquistão, Índia ou Bangladesh, e de outras latitudes e longitudes mais áridas perseguem na ingenuidade e necessidade: «o sonho americano» na cidade lusa. Viajantes de estadias apressadas olham para a cidade como para uma bela mulher, e vão-lhe surripiando as virtudes até a largarem de vez. Abandonada correrá desesperada, olhando-se no espelho do tempo no encontro de uma passado acabado e ido, tal como a velha rameira sem que consiga seduzir um novo cliente pelo seu desgaste prematuro fedo, e franchona. As cidades têm a sua beleza caduca, se maltratadas. Jogo perigoso este o do lucro fácil que corrompe o sonho e a realidade e gera mal a cultura. Um «pronto a comer» a ser servido nas velhas instalações da Livraria, a troco de um mísero papel verde com a marca de uma união não existente que começa por «Eu...» de: egocentrismo e egoísmo, do avarento. Esse de quem o manda imprimir: o papel de frases compostas e letrado imprimidos nos livros deixou de ser ou ter. As páginas de Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (1953) estão abertas e prontas para a combustão. Pobreza e fome na mente que se encontram. Na descida encontramos: artistas que sopram bolas de sabão, artistas que manipulam ferros no ar, um outro activo mendigo que minucioso declara a esmola: quer para «antes, durante e depois da bebedeira». Gravações nas carnes de uns outros tantos, tal o timbre de selo em azul no encarnado da carne do talho, a sujidade marcada nas caras troncos e membros dos animais humanos. Humanos como animais, nos olhares implorativos e agressivos pela negação sucessiva da esmola misturam-se com o cheiro a combustível queimado no artesanal de um sopro bucal. O constante pedido que nos bate no ouvido: -«Não quero dinheiro, mas uma ajudinha.». O desesperado grito da alma do jovem e sem abrigo desempregado: -«Leve-me à pastelaria, tenho fome, não quero maçar, mas preciso mesmo...»- Pai e filho mais abaixo tocam o órgão e o violino de forma perfeita e virtuosa uma melodia de cinema, uma música do velho Charles Chaplin, «A Luzes Da Ribalta». Encostados a um canto contra a parede do prédio e a frieza da pedra, prosseguem na cadência da pobreza perante o aluvião de gente que desce...Alguns desses turistas pagaram demasiado para descer uma rua de Lisboa, na procura de algo singelo, e que pudessem dizer de volta a casa: -«Vi!!! olha as fotos.»-, No entanto fecham-se num bolso cozido pelo coração insistente... Uma metamorfose nacional a desenrolar-se no vivo e «posta-a-nu» neste bairro «chique». O poeta Chiado mal se sustem no seu banco inclinado no seu pedestal maciço, frente a uma escadaria inconcebível e deslocada, de dentro de um dos prédios, da sua «devida» localização como em qualquer capital da Europa. O ilógico, o «caos» meditado e de improviso, tornaram-se as «palavras de ordem» nesta nossa sociedade. Resta-me a mim ordenar as palavras nesta descida e subida do Chiado e contar uma história: De perna cruzada o Fernando Pessoa frente à «Brasileira», fala e assume uma posição: frio e em de estátua de eril, jamais vista pelos seus vizinhos, esse de Ricardo, de Alberto e outros noventa tantos. Delega-os, sim a eles de virem falar com os intrusos nesta visita ao seu apartamento de poucas assoalhadas, no prédio de uns sessenta andares esse o mais alto da cidade, onde residem todos os companheiros letrados seus vizinhos. Falta-lhe aqui neste seu canto derradeiro e por companhia, o recheio do seu papel riqueza naquela mala-de-porão. O colo e a face coram em amarelo no esfregar, no assédio dos intrusos. A poetisa apenas umas portas ao lado, prossegue na sua tarefa de comercialização pós-criativa: a da venda directa da sua poesia que compôs no sossego do seu canto, numa leitura muda agora alto murmurada do algo que escreveu. Aproxima-se de um outro desconhecido num suave deslizar bem feminino, e numa melodiosa sopra-lhe a rima. (21) «A Menina Da Caixa Do Super» Um olhar na direcção da caixa, na hesitação, o sorriso no reconhecimento de alguém de quem se gosta, no sincero. O dito: «Não faças isso, elas não gostam!» Na resposta: «O porquê? Se eu alegro-lhe o dia!» Insiste na negação: - «Diferente extrato social o teu e o dela.» O argumento a favor: - «Não digo nada de ofensivo, apenas alegro-a na hora do fecho da máquina, quando o pensamento constante que lhe vai no pensamento é simples: o ir para casa. E no remate: Tacanho da tua parte o não ser amável e dialogar com as pessoas mesmo que não as conheças.» Na interrogação desafiadora: «Eu tacanha?» Na desculpa acusadora: - «Sim se pões as coisas desse modo. Há que partilhar a vida, com as pessoas que trabalham, que nos dão um serviço. Os portugueses sofrem de complexos de arrogância e impõe barreiras sociais onde não deveriam existir. Se formos a ver ela terá mais dinheiro do que eu no presente, Tem uma caixa automática com uma gaveta cheia e mágica que ao toque e ao primir de um botão se abre em notas e moedas. Troco-te a ti por ela em qualquer altura, embora sejas alta e loira e ela baixinha. Mas é doce que nem um «bonbon» e de um sabor negro a chocolate. Repara-me naquele carrapito no oposto aos lábios mais sensuais que já vi. Levo-a rapto-a levo-a comigo, e com certeza no seu assentamento de supermercado, está em promoção. Ai! quem me dera a poder abraçar e beijá-la naquela flor aberta de alegria, que quando dá por mim à distância a passar pelas portas que recuaram no receio na minha passagem. A resposta saltou-me na pergunta se: - «Quer um saco?»- Não! quero uma mala grande e dois bilhetes de avião para a levar comigo. Sinto-me bem forte de sacos cheios de compras. Olho para o lado e estou sózinho. Só e acompanhado pelo olhar de gozo da menina da caixa na troca da loira pela morena. (22) Epílogo: «Morto Mas Vivo Na Agressividade» A agressividade do morto português, não se fica pela morte, mas projecta-se para além desta. Morto está, mas vivo na sua agressividade, agita-se pela memória repentina, sem que o deixem morto em paz, sem que a élite mediática o largue. O artista, o escritor, o político, o locutor morto, «irto» mexe e mudo declama surdo: a obra, o teatro, as letras, a canção, o discurso, as notícias, num colorido de uma mancha aguarelada, segundo os contornos desenhados, numa pintura berrante da memória, de um telejornal sem nexo. O vivo telecomanda o morto numa última curta vida até ao esquecimento. Nomeia-se a rua sombria de um bairro da cidade com o seu primeiro nome, a seguir o apelido, e por último a profissão, a pretexto da saudade deixada pelo defundo. Assim se irão multiplicar as saudades como cidades de ruas e construções urbanas, onde é necessário um mapa ou guia turístico para orientação. Segue-se a rua e ao longo do seu caminho, dá-se de caras com alguém conhecido. Sobe-se nas alturas pelo elevador do prédio até ao último andar, deparamos com a vista geral da saudade. Há bairros de saudade. Há restaurantes de saudade, há obsessões e teimas persistentes que não desaparecem de saudade, tais como sentires e imagens de quem se ama. A tinta fresca chora em lágrimas e ao morto persegue pela rua. Um nome díficil de encontrar no começo, ou no fim do caminho, a constante procura do turista, na sua descoberta entre o Norte e o Sul, no olhar vazio da cidade, no estudar do mapa na procura da «tasca», esta sempre com um nome mais sonante. Um sotaque, uma pronúncia de fugir ao futuro que nos persegue, o do turista. Fica a pedra indicativa com o nome do morto cinzelado, e depois: -«Olhe! nasceu e morreu catalogado.»- Fim Registado IGAC Palácio Foz Proc. Nº 4369/2016 Page coming soon.